31/05/2022 | Opinião

Internalizar a Formação Médica

Joana Silva
Interna de Formação Geral

Pelas ruas de Lisboa caminhou uma jovem vocacionada para a Medicina e com esperança que um dia pudesse vir a exercer em Portugal. Moldada pelo Sistema Educacional Português, sentia que com a sua média de Secundário estaria apta para qualquer desafio. Assim, ingressou e dedicou-se à Medicina, ao decorar os “calhamaços de Anatomia” e outros afins. Instigada pela comunidade médica a questionar e a explorar respostas, pouco a pouco apercebeu-se que não tinha a estrutura necessária para cultivar a sua capacidade crítica, fazendo com que a esperança anui-se. Porventura, num belo dia na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e rodeada de amizades enriquecedoras, a jovem teve o privilégio de fazer um projeto de investigação e, assim, conheceu um Professor dotado para o ensino e devoto ao seu compromisso com a Ciência e a Medicina. Amavelmente, o Professor mostrou como se deve questionar a ciência, mas, acima de tudo, a racionalizar as decisões da prática clínica como da investigação científica, expondo-a a um modelo educacional focado na resolução de problemas face ao regime estático de decorar conceitos.

Finda a Licenciatura com Mestrado Integrado de Medicina e confiante que agora teria capacidade de fazer a diferença, iniciou a sua prática clínica. Deveras, a jovem médica sentia que não estava alienada ao quotidiano clínico e que racionalmente estaria a fazer as escolhas que eticamente achava que elevariam a dignidade do doente. No entanto, na era COVID-19, tentou perceber a razão da desmotivação dos profissionais de saúde face ao excelente trabalho prestado pelos colegas. Neste processo, apercebeu-se que a resiliência dos colegas estava em ruptura moral face ao conflito das necessidades dos cuidados de saúde e da parca capacidade gestora das unidades hospitalares. Assim, a recompensa ética estava reduzida a horas-extra acumuladas e não remuneradas.

Foi-se também apercebendo que havia uma enchente nas Urgências face à gestão das Unidades de Saúde Primária precária e, assim, os colegas exaustos dos desafios da COVID-19, estavam aberdados com casos igualmente preocupantes. Deste modo, o cuidado dos doentes ficava vulnerável a um serviço fragilizado dependente dos jovens médicos que hipotecam a sua formação académica face ao desgaste da gestão política. Denotou, também, que muitos colegas de variadas especialidades e áreas políticas não partilhavam empatia e interligação formativa, realidade essencial que torna a Medicina una, contribuindo no afunilamento da compensação laboral e da formação médica oferecido pelo Serviço Nacional de Saúde.

Deveras, a jovem médica estava a praticar Medicina e estava a aprender imenso. No entanto, ela procurava fazer a sua especialidade e não se tornar numa médica indiferenciada. Assim, optou por fazer a prova nacional de acesso à especialidade, vulgo PNA, e aguardar pelas vagas que o ano seguinte traria. Porventura, as vagas disponíveis eram escassas face à quantidade de jovens médicos que se candidatavam à especialidade, deixando de fora dezenas de colegas com potencial para praticar Medicina. Confrontada com esta realidade e com vontade de continuar a cultivar o seu conhecimento médico-científico num meio receptivo à diversidade formativa e que ofereça compensação monetária como qualidade de vida, a emigração surgiu com a promessa de poder reajustar e sedimentar a sua formação académica, oferecendo uma viagem única e ajustada às convicções na contribuição médico-científica da jovem.

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