17/06/2022 | Opinião, Wellbeing Awards

Sistemas de resposta rápida – Uma salvaguarda nos hospitais

Leandro Luís
Associação para a Gestão e Inovação em Saúde, Administrador Hospitalar no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central, EPE
Nuno Simões
Associação para a Gestão e Inovação em Saúde, Enfermeiro Especialista no Centro Hospitalar Barreiro Montijo, EPE

“Os nomes das pessoas que iremos salvar poderemos nunca os conhecer, o nosso contributo é aquilo que não lhes aconteceu. E apesar de serem desconhecidos, nós saberemos que mães e pais estarão nas graduações e nos casamentos que teriam perdido, e que os netos conhecerão os avós que poderiam nunca ter conhecido…” (Berwick, 2004 in IHI, 2022).

Na sequência do relatório “To Err is Human: Building a Safer Health System” do Institute of Medicine (Kohn, et al., 1999) que concluiu que todos os anos entre 44 000 a 98 000 pessoas perdem a sua vida por erros clínicos, Donald Berwick discursou sobre as vidas que poderiam ser salvas através da introdução de medidas que permitissem cumprir o desígnio fundamental explanado no juramento de Hipócrates “primum non nocere”.

A campanha lançada em 2004 pelo Institute for Healthcare Improvement (2022) teve um elevado impacto e provou que o cumprimento de orientações clínicas simples e práticas, permitem salvar milhões de vidas em todo o mundo.

Uma dessas medidas refere-se à criação e ativação de equipas de resposta rápida, especializadas para responder a condições especialmente graves ao primeiro sinal de declínio das pessoas internadas.

Os profissionais de saúde têm uma pressão enorme no seu quotidiano e gerem atividades de enorme exigência técnica e relacional. Observando o trabalho que estes desenvolvem, o seu nível de compromisso é de tal forma elevado, que a frustração de não conseguir cumprir com todas as expetativas, os levam a situações de elevado stress laboral.

Os sentimentos destes profissionais de saúde que se dedicam ao bem servir a população, aquando de um agravamento ou morte de uma pessoa, leva a reflexões sobre o que poderiam ter feito mais para o evitar, o que lhes pode ter escapado na avaliação clínica. Estas questões podem ser terríveis e destruidoras para os profissionais da saúde.

O desenvolvimento de sistemas de resposta rápida, que visam antecipar as situações de degradação clínica das pessoas internadas e antecipar a ativação precoce de equipas especializadas em tratamento de situações mais críticas, prevenindo o agravamento da situação clínica das pessoas, antes de serem tão graves que pouco existe a fazer.

Estes sistemas, mais que serem ferramentas para garantir maior segurança para as pessoas internadas, são também para garantir maior segurança aos profissionais de saúde.

Historicamente, a ideia acerca destes sistemas foi escrita em 1982 numa carta enviada por Ken Hillman ao Diretor do Departamento de Emergência do Hospital Charing Cross de Southampton, sugerindo a necessidade de criar equipas especializadas para abordagem aos doentes críticos nas enfermarias para melhor beneficiar os doentes. É neste documento que Hillman define as características daquelas que mais tarde surgem como equipas de emergência médica hospitalar, um conceito preventivo que veio contrariar o conceito das equipas de reanimação cardiorrespiratória que existiam naquele momento (Hillman, 2006).

Curiosamente, esta abordagem só foi introduzida pelo mesmo Hillman no Liverpool Hospital em Sydney, no início dos anos 90. Os sistemas de organização que vieram a tornar-se um modelo obrigatório em grande parte do mundo. Hoje são utilizados para salvar vidas todos os dias.

O mundo não aceita muitas vezes a mudança positiva, por vezes por falta de preparação, por outras por desconhecimento ou desinteresse. Em algumas simplesmente ainda não é o momento. Neste, como em outros casos, o momento veio mais tarde, mas contribuiu para que mais mães, pais e filhos, avós e netos possam estar presentes na vida de todos nós.

Referências:

Institute for Healthcare Improvement (IHI) (2022), Protecting 5 million lives from harm – Some is not a number, soon is not a time. Disponível em: http://www.ihi.org/Engage/Initiatives/Completed/5MillionLivesCampaign/Pages/default.aspx.

Kohn, L.K. (Edt.), Corrigan, J.M. (Edt.), & Molla S.D. (Edt.) (2000). To err is human: Building a safer health system.  Estados Unidos da América: National Academy Press. ISBN: 0-309-51563-7.

Hillman, K. (2006). “Conceptualisation, development and implementation of the medical emergency team as a system of management to improve outcomes for serious ill patients”. University of New South Wales submission for Doctorate of Medicine. UNSW.

 

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