Urgência de cirurgia pediátrica do Porto pode ficar em “sobrecarga” com fecho de Braga

1 de Julho 2022

Os responsáveis pela Urgência Metropolitana de Cirurgia Pediátrica do Porto, que engloba três centros hospitalares, não foram informados do encerramento do mesmo serviço no Hospital de Braga e, temendo “uma sobrecarga”, exigiram hoje “mais planeamento”.

Em declarações aos jornalistas no Hospital de São João, no Porto, e acompanhado de outros responsáveis, o diretor do Serviço da Urgência Pediátrica daquela unidade, Rúben Rocha, disse que a situação de Braga “deveria ter sido prevista” e alertou que pode acarretar “implicações de disponibilidade do bloco operatório”.

“Nós devíamos ter sido informados da quantidade e qualidade de doentes que vão passar a chegar cá e vão sobrecarregar o nosso sistema. São doentes que muitas vezes não têm diagnóstico imediato, o que leva a que sejam internados, que sejam submetidos a cirurgia. Uma urgência metropolitana de fim de linha que recebe todo o tipo de doentes da zona Norte vê-se agora sobrecarregada”, disse o médico.

A Urgência Metropolitana de Cirurgia Pediátrica do Porto reúne profissionais de saúde de três centros hospitalares: Centro Hospitalar e Universitário de São João (CHUSJ), Centro Hospitalar Universitário do Porto (CHUPorto) e Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho (CHVNG/E).

Na quarta-feira foi tornado público que o Hospital de Braga ficaria a partir de hoje, e por tempo indeterminado, sem urgências de cirurgia pediátrica no período noturno.

Em resposta enviada à Lusa, a administração do Hospital de Braga adiantou que, no período entre as 20:00 e as 08:00, fica apenas assegurada a observação de crianças já internadas e daquelas que foram submetidas a cirurgia nos últimos 30 dias e que recorram à urgência por motivo relacionado com essa mesma cirurgia.

“Esta situação tem implicações de disponibilidade do bloco operatório [da urgência metropolitana do Porto] e estamos no período em que se vão iniciar as férias dos profissionais de saúde”, recordou esta manhã Rúben Rocha, que falava ao lado de Miguel Campos, diretor de Serviço da Cirurgia Pediátrica (CHUSJ), Caldas Afonso, diretor do Centro Materno Infantil do Norte (CMIN), e de Fátima Carvalho, diretora de Serviço Cirurgia Pediátrica (CHPorto).

Sobre o que está previsto fazer a partir daqui, o diretor do CMIN revelou aos jornalistas que foram pedidos esclarecimentos à Administração Regional de Saúde do Norte (ARS-Norte) e que esses serão dados, conforme lhes foi transmitido, “oportunamente”.

“Já foi encaminhado um doente de 12 anos [de Guimarães] esta noite”, contou Caldas Afonso, que à pergunta sobre se as urgências pediátricas do Porto estão sob pressão respondeu perentoriamente: “obviamente estamos”.

A agência Lusa contactou a ARS-Norte e aguarda resposta.

Na conferência de imprensa, o diretor do CMIN, estrutura que faz parte do CHUPorto e do qual também faz parte o Hospital de Santo António, mostrou-se também preocupado com o número de profissionais disponíveis para o futuro.

“O número de recursos humanos em Braga não mudou, enquanto aqui estamos em situação de fragilidade”, disse Caldas Afonso, acrescentando que no CHUPorto as escalas têm sido asseguradas graças “à motivação e ao sentido de serviço público” de “colegas que legalmente pela idade podiam deixar de fazer, mas aceitam entrar na escala”.

Esta “generosidade”, como lhe chamou Rúben Rocha, foi também descrita pelos responsáveis do CHUSJ.

“Temos já colegas – cirurgiões pediátricos – que, já fora do seu período de disponibilidade para o trabalho noturno, generosamente contribuem e continuam a assegurar a urgência metropolitana, e agora vemo-nos sobrecarregados e não houve um planeamento prévio”, disse o diretor.

Rúben Rocha contou que “nas últimas semanas” os serviços pediátricos do Porto “têm passado por picos de admissão históricos face às últimas décadas”, chegando “a ter dias a receber 300 crianças”.

“Há um risco de entupimento”, afirmou o médico do Hospital de São João, enquanto, ao lado, o responsável do CMIN reafirmava que “para poder planear é necessário conhecer o histórico do que está em causa”.

“Seguramente seremos sempre parte da solução e não do problema, mas preocupa-nos porque a zona que o Hospital de Braga tinha até agora na cirurgia pediátrica é uma zona imensa com muita população jovem”, concluiu.

A reunião que juntou responsáveis do CHUSJ e do CHUPorto foi realizada de “urgência” e, de acordo com o que foi transmitido aos jornalistas na conferência de imprensa que a sucedeu, os responsáveis do CHVNG/E estão a acompanhar as diligências e não marcaram presença na sessão dado o caráter urgente desta.

LUSA/HN

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