Diabetes: Controlo global dos fatores de risco é essencial para evitar a principal causa de morte em Portugal

O risco de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) – a principal causa de morte em Portugal – é duas a quatro vezes superior nos doentes com diabetes. Em entrevista exclusiva ao HealthNews, Luís Andrade, assistente hospitalar de Medicina Interna e diretor de serviço do Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga, explicou a relação entre a diabetes e o AVC e sublinhou a importância de envolver todos os doentes e seus médicos na prevenção, através do controlo global dos fatores de risco.

HealthNews (HM)- Existe alguma ligação entre a diabetes e o acidente vascular cerebral?

Luís Andrade (LA)- O acidente vascular cerebral é a principal causa de morte e incapacidade em Portugal. Os doentes com diabetes apresentam um risco duas a quatro vezes maior de poderem ter um acidente vascular cerebral, normalmente denominado por AVC, sendo o prognóstico ainda pior do que num doente não diabético. Ou seja, não só o risco de ter um AVC aumenta de forma exponencial, como também a probabilidade de morte ou de incapacidade com pior prognóstico é claramente superior nos doentes com diabetes.

Além das alterações características da diabetes, nomeadamente o aumento da glicemia, existem outros fatores de risco que são frequentes nos doentes com diabetes: hipertensão arterial, obesidade e dislipidemia. A presença destes fatores de risco aumenta de forma proporcional e exponencial o risco de eventos cardio-cerebro-vasculares na pessoa com diabetes.

HN- Porque é que tantos diabéticos morrem vítimas de AVC?

LA- Os estudos populacionais indicam que o doente com diabetes tem um risco duas a quatro vezes superior de poder sofrer um evento cardiovascular, incluindo um acidente vascular cerebral. A presença de outros fatores de risco, como a hipertensão arterial, dislipidemia e a obesidade (presentes na grande maioria dos diabéticos), aumenta de forma exponencial a probabilidade de um evento cardiovascular, pelo que, neste grupo de doentes, o acidente vascular cerebral é claramente superior.

HN- O que é que se pode fazer para minorar esse risco?

LA- De forma a diminuir o risco de um doente diabético vir a ter um AVC, é fundamental a otimização do estilo de vida e o controlo global dos fatores de risco cardiovasculares.

Uma dieta variada e equilibrada, associada a um aumento da atividade física (pelo menos 30 minutos de caminhada por dia), e, se possível, um exercício físico programado são pontos essenciais no controlo da diabetes e de outros fatores de risco cardiovasculares.

O controlo dos fatores de risco cardiovasculares de forma global permite as maiores reduções de risco e de eventos cardiovasculares. Tal foi demonstrado num estudo científico onde os doentes diabéticos foram submetidos a um controlo global dos fatores de risco cardiovasculares, permitindo as maiores diminuições de eventos cardiovasculares e microvasculares e, principalmente, um aumento dos anos médios de vida.

A evolução científica permitiu que, nesta fase, tenhamos terapêuticas orais e injetáveis inovadoras que, para além do controle de glicemia, podem verdadeiramente modificar prognósticos, diminuindo o risco de complicações, aumentando a qualidade de vida e reduzindo o risco de hipoglicemias.

Realça-se ainda a necessidade da autovigilância, cumprir os cuidados e a toma frequente da medicação por parte dos doentes. Apenas com uma compliance adequada o doente irá conseguir os benefícios dos fármacos que usa.

HN- Qual a especialidade responsável pela avaliação deste risco?

LA- O doente com diabetes apresenta múltiplos fatores de risco, devendo ter uma avaliação global e multidisciplinar.

Todos são necessários na luta contra a diabetes. A avaliação multidisciplinar por médicos, enfermeiros e nutricionistas, entre outros profissionais, permitirá uma análise global do doente e da doença, conseguindo os melhores resultados. A colocação do doente verdadeiramente “no centro” da atenção de equipas multidisciplinares, nos cuidados de saúde primários e/ou hospitalares, permitirá alcançar o melhor controle metabólico, a redução dos fatores de risco cardiovasculares, a deteção precoce do atingimento cardiovascular e microvascular e, acima de tudo, aumentar de forma significativa a qualidade de vida dos diabéticos.

HN- Quais as recomendações no tratamento?

LA- Depois do AVC, existem terapêuticas inovadoras ao nível da fase aguda com técnicas de trombólise, equipas de revascularização invasivas e unidades de AVC com alta diferenciação, permitindo uma redução das consequências deste evento vascular.

Na fase crónica, a recuperação funcional permite uma melhoria significativa da qualidade de vida, com redução progressiva e sustentada das consequências de um AVC.

Apesar da evolução na área do AVC, o principal empenho deve ser a prevenção e a diminuição, de forma drástica, da possibilidade deste evento vascular. O controle da diabetes e da hipertensão arterial, a diminuição das alterações do colesterol/triglicerídeos e a redução significativa do peso são prioritários na prevenção do AVC na pessoa com diabetes.

Entrevista de Rita Antunes

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