Anabela Raimundo: Sessões práticas do Encontro na Luz “promovem interação entre diferentes especialidades e maior aprofundamento do conhecimento”

Anabela Raimundo, assistente hospitalar de Medicina Interna, coordenadora de área estratégica do Centro de Simulação e responsável das consultas de risco cardiovascular e dislipidemias hereditárias do Hospital da Luz Lisboa.

Anabela Raimundo é uma das formadoras do “Encontro na Luz”, evento dedicado aos cuidados de saúde primários, que o Hospital da Luz Lisboa acolhe a 12 de novembro. Em entrevista ao HealthNews, a médica internista desvenda parte dos planos desta sessão, na parte da tarde, que conduzirão os médicos de Medicina Geral e Familiar ao Centro de Formação e Simulação do Hospital da Luz Learning Health. E conclui: “Estamos cá para transmitir conhecimento e para ouvir, para interagir uns com os outros e passar um dia em que temos a ciência e o doente no centro da prestação de cuidados. Mas, acima de tudo, para fortalecermos as relações humanas entre todos nós.”

HealthNews (HN)- Qual a pertinência das sessões práticas do dia 12 de novembro?

Anabela Raimundo (AR)- As sessões práticas promovem uma interação entre as diferentes especialidades e um maior aprofundamento do conhecimento, que se torna mais sedimentado quando posto em prática.

HN- Porquê os temas insuficiência cardíaca, síncope e cefaleia?

AR- A síncope e as cefaleias são queixas muito comuns no serviço de urgência e na consulta ambulatória. É algo com que o médico generalista se depara com muita frequência. Como tal, dar ferramentas e atualizar conhecimentos pareceu-nos pertinente numa sessão de um dia dedicado à Medicina Geral e Familiar.

Em relação à insuficiência cardíaca, é um tema um pouco mais complexo, diria eu, mas é também muitas vezes diagnosticada no âmbito da Medicina Geral e Familiar. Além disso, o tema tem sofrido muitas atualizações nos últimos tempos, com novas guidelines, novos medicamentos e uma mudança de perspetiva importante nesta área, do ponto de vista terapêutico, o que tem também implicações em termos de prognóstico e de seguimento dos doentes.

HN- Será formadora na sessão “Síncope e cefaleia súbita: simulação de casos clínicos de urgência”. Também participará no momento “Insuficiência cardíaca, Clinical escape games, Hospital getaway”?

AR- Eu vou elaborar os casos clínicos da síncope e da cefaleia súbita e, depois, vou também fazer parte dos instrutores do clinical escape games, hospital getaway – um conceito completamente inovador, desenvolvido numa parceria entre o Hospital da Luz Learning Health e outras duas empresas, a Nobox e a Uphill, que vai trazer novidades do ponto de vista da formação.

Têm-se tornado populares os escape games feitos de forma lúdica por pessoas que se organizam em grupos e participam. Foi decidido adaptar este conceito à medicina, em que as riddles utilizadas são médicas. Ou seja, é preciso ter conhecimento médico para poder resolver os enigmas e avançar dentro da história contada no escape game. Isto associa dois conceitos distintos: a parte lúdica e a parte científica. Este conceito já foi colocado em prática com vários grupos de médicos das mais variadas áreas e tem sido extremamente popular e muito agradável e rewarding a maneira como as pessoas aderem e querem participar nestes jogos.

Além deste conceito mais de conhecimento e de aprendizagem, de ciência pura e dura, há uma aprendizagem, análise e desenvolvimento de soft skills. Nestes jogos, é muito importante a liderança, a interação entre as equipas, o comportamento em ambientes estranhos e exigentes, porque às vezes as pessoas não se conhecem entre si e não estão habituadas a trabalhar em equipa. Tudo isso é um desafio tremendo. Há várias vertentes que me parecem extremamente atrativas e aliciantes neste jogo.

HN- Que mais prepararam para a prática?

AR- Este clinical escape game será da área da insuficiência cardíaca, essencialmente. Haverá depois alguma simulação de casos clínicos da urgência, os da síncope e cefaleia. As pessoas poderão escolher dois grupos, sendo que haverá rotatividade entre sessões ao longo da tarde, para poderem participar em várias coisas diferentes. Há ainda um caso clínico de fibrilhação auricular, pela Arritmologia, uma parte de gastroscopias com os colegas da Gastroenterologia e um simpósio satélite. Portanto, as pessoas escolhem duas destas cinco possibilidades e vão rodando entre si para poderem participar em pelo menos duas atividades.

HN- O que é que gostaria de transmitir aos médicos de Medicina Geral e Familiar que participarem?

AR- Acho que há aqui duas vertentes muito importantes. Uma é a aproximação entre as diferentes especialidades: especialidades generalistas, mais de ambulatório, com as especialidades mais hospitalares. A boa comunicação entre estas especialidades é muito importante e facilita muito o tratamento e o seguimento dos doentes. O importante são as pessoas. E a maneira como as pessoas interagem, se ligam e conseguem dialogar sobre os doentes e a ciência é fundamental à boa prática médica.

Importa também a transmissão de conhecimentos e a atualização de algumas coisas que são mais ou menos habituais na prática clínica, mas que, obviamente, podem sempre ser aperfeiçoadas e melhoradas ao longo do tempo e com a aquisição de novos conhecimentos. Especialmente nesta área da insuficiência cardíaca, como já referi, há algumas novidades importantes. E a atualização científica é algo que um médico persegue e deve manter ao longo de toda a sua vida.

Por outro lado, é também mostrar o Hospital da Luz e todas as suas capacidades formativas, a sua capacidade de interação com estes colegas e a disponibilidade para os receber e fazer um seguimento adequado e correto dos doentes em parceria.

HN- Qual é o papel do médico de família no acompanhamento da síncope, da cefaleia e da insuficiência cardíaca?

AR- A síncope e a cefaleia súbita são duas patologias que muitas vezes surgem no serviço de urgência e onde o médico generalista está, e este é o primeiro médico a fazer a sua abordagem. A valorização das queixas do doente deve levar a um adequado seguimento do doente.

São sintomas que podem ser altamente enganadores. Uma adequada triagem e abordagem inicial permite aliviar uma série de complicações e prevenir a morbimortalidade muito significativa.

Estes diagnósticos vão da gravidade zero ao risco de morte, por isso é fundamental um adequado seguimento destas patologias, para evitar problemas. Seguimento, triagem e uma alta ou internamento adequados, isso é fundamental. Há pequenos sintomas iniciais que, se forem adequadamente avaliados e pedidos os exames certos, permitem fazer um diagnóstico mais precoce e o seguimento mais adequado, com a instituição de terapêuticas adequadas, evitando o agravamento da patologia e uma evolução mais rápida da doença.

A insuficiência cardíaca é muitas vezes diagnosticada numa fase avançada por serem desvalorizados os sintomas iniciais, que são razoavelmente comuns, como o cansaço e o edema dos membros inferiores. Um alerta para esta patologia, que pelo envelhecimento da nossa população se tem vindo a tornar cada vez mais frequente, é muito importante e permitirá um diagnóstico mais precoce.

HN- O que é que destacaria no centro de formação e simulação do Hospital da Luz Learning Health?

AR- É difícil salientar algo porque o centro, além de ser um dos maiores da Península Ibérica, tem uma enorme variedade de equipamentos. É um centro de excelência, com uma variedade brutal de cenários, modelos e possibilidades de formação, e tem um material humano também muito significativo, com formadores de todas as áreas, desde a pediatria à ginecologia/obstetrícia, passando pela cirurgia geral, cuidados intensivos, etc., que o torna muito diferenciado, permitindo simulação imersiva ao mais alto nível.

Em resumo, acho que o que se destaca mesmo é a qualidade e a inovação. Essas são as palavras essenciais.

HN- Quer deixar uma nota final?

AR- Gostaria muito que as pessoas viessem com espírito aberto para aprender, para partilhar experiências e para se divertirem. Estamos cá para transmitir conhecimento e para ouvir, para interagir uns com os outros e passar um dia em que temos a ciência e o doente no centro da prestação de cuidados. Mas, acima de tudo, para fortalecermos as relações humanas entre todos nós.

HN/RA

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