21/10/2022 | Opinião, Opinião-Saúde

Viver com dor crónica: o impacto da dor crónica na saúde mental

Patrícia Pinto
Especialista em Psicóloga Clínica e da Saúde, psicóloga no programa AcompanhaDOR do Centro de Medicina Digital P5

A dor faz parte da vida.  É um mecanismo de alarme com função de defesa da integridade dos organismos vivos, visando protegê-los e garantir a sua sobrevivência. No entanto, importa diferenciar a dor aguda da dor crónica. A dor aguda é limitada no tempo e confinada a uma causa, é considerada uma experiência esperada e aceitável, à qual se atribui, normalmente, um sentido. Dói porque me cortei num dedo, porque caí e fraturei o pé ou porque tenho uma infeção num dente. Nestas situações, o que é descrito pela pessoa que sente dor é coerente, faz sentido, todo o processo inerente ao tratamento é normalmente despoletado e tudo se desenrola na direcção da cura e da resolução da dor. A vida continua.

Quando falamos de dor crónica devemos ter consciência de que este tipo de dor é uma condição persistente, de longa duração, podendo ser o resultado de uma lesão corporal ou de uma doença, mas pode também desenvolver-se com o tempo, sem nenhuma causa óbvia ou manter-se mesmo quando a suposta causa óbvia já foi resolvida. É aqui que a narrativa da história de vida da pessoa pode ser interrompida e perder o seu sentido.
O ser-humano tem necessidade de ter uma explicação para tudo o que lhe acontece, de identificar as causas e os motivos, de atribuir sentido às coisas, aos acontecimentos, de conseguir contar uma história coerente acerca daquilo que o afeta e que lhe aconteceu. É, por isso, compreensível que a dor crónica possa pesar negativamente na saúde mental dos indivíduos. Começando logo por aqui: “Eu só queria perceber porque é que tenho esta dor!”.  Além deste impacto negativo da dor, associado à falta de sentido, há também o sofrimento intenso associado ao facto de doer mesmo, às consequências negativas, por vezes devastadoras, que a dor traz aos diversos domínios da vida da pessoa: individual, relacional, familiar, laboral, social, alterando hábitos, comportamentos e vidas.

Ao contrário do que pode pensar, não surgem apenas fatores psicológicos como consequência da dor. Na verdade, a dor, além de envolver mudanças no corpo, na química e nas conexões do cérebro, envolve também mudanças psicológicas – na maneira de pensar e sentir. Estes fatores psicológicos são constituintes intrínsecos da própria teia multidimensional que é a experiência de dor. Esta pode, logo na sua origem, surgir associada a padrões cognitivos e emocionais negativos e/ou disfuncionais que vão ampliar o sofrimento associado à dor.

É, por este motivo, importante integrar psicólogos nas equipas multidisciplinares de intervenção na dor crónica. Os estudos científicos mostram que as abordagens psicológicas realmente mudam a forma como o cérebro processa a dor, levando a melhorias significativas na qualidade de vida e no bem-estar das pessoas com dor.

Um dos vetores da intervenção psicológica incide na reestruturação do pensar, do sentir e da resposta à dor; no desafio e substituição de pensamentos disfuncionais como, por exemplo, “Com esta dor não consigo fazer nada” por crenças mais adaptativas como “Apesar da dor, se fizer as coisas aos poucos, consigo fazer o que tenho a fazer!”. Em vez de responder à dor com inatividade, responder com regulação do ritmo de atividade. Aqui, a educação para a dor é uma componente central.

No cerne da abordagem psicológica está também a promoção da aceitação da dor crónica, por oposição a uma vida focada no evitamento e na eliminação da dor, não sendo este um caminho viável porque surge associado ainda a mais sofrimento. É, portanto, mais realista, aprender a viver com a dor, enquanto se promove o foco em atividades e objetivos de vida que a pessoa valoriza. Pretende-se uma descentralização da dor, paralelamente a uma centralização crescente e motivada naquilo que interessa, nas coisas boas e de valor que existem e importam na vida do indivíduo.

E, claro, a narrativa daquela pessoa não pode ser esquecida. Enfatizando-se que mesmo sem um sentido claro se pode sempre trabalhar na clarificação do sentido, na aceitação da ausência de causas óbvias e de explicações objetivas e de certezas.
A incerteza faz parte da vida, no entanto, quanto mais o ser-humano estiver disponível para integrar a incerteza e a dúvida melhor conseguirá viver a sua vida.

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