Plataforma Saúde em Diálogo: “Invistam mais no setor social”

O “Livro Branco das Associações da Plataforma Saúde em Diálogo – Retrato dos Novos Tempos” foi ontem apresentado em Lisboa, numa conferência em que se apelou à colaboração entre o setor social e o da saúde.

O livro “contém uma série de testemunhos de várias associações que integram a plataforma, maioritariamente associações de doentes e, mais especificamente, pessoas com doença crónica. E conta-nos o modo como estas associações se reinventarem para conseguirem lidar com os desafios da pandemia. É, ao mesmo tempo, uma retrospetiva daquilo que aconteceu, mas é também um sinal de esperança no futuro, porque as estratégias que ali são apresentadas podem ser muito úteis para melhorar a qualidade de vida das pessoas com qualquer tipo de doença”, disse ao HealthNews a Presidente da Direção da Plataforma Saúde em Diálogo, Maria do Rosário Zincke.

Na Associação Nacional das Farmácias (ANF), esse trabalho foi apresentado por Isabel Saraiva, Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Plataforma Saúde em Diálogo, que também abriu a sessão desta Conferência Anual da Plataforma Saúde em Diálogo, este ano dedicada ao tema “Saúde: novos caminhos, um desígnio comum”.

“O tempo, como todos sabemos, é um bem precioso, por vezes muito escasso. E foi com um tempo diferente que nos vimos confrontados durante a pandemia, e é esse tempo que ouviremos hoje, tanto na apresentação do livro (…) como na conferência”, disse a primeira interveniente.

Seguiu-se Ema Paulino, Presidente da Direção da ANF, que dirigiu uma mensagem de apoio e agradecimento à Plataforma Saúde em Diálogo, pelo trabalho “que está à vista” e “pelos importantíssimos resultados que produzem na área da intercolaboração em saúde”, mostrando-se a ANF disponível para “contribuir para o crescimento e consolidação deste projeto”.

Para a ANF, as soluções para os desafios atuais “terão de ser baseadas na colaboração entre todos os atores do sistema de saúde, colocando a pessoa no centro dessas decisões”. “O desejo da ANF é poder continuar a promover iniciativas multidisciplinares e inovadoras que mostrem o valor que reside na interface entre as várias profissões e instituições que se dedicam à prestação de cuidados de saúde”, acrescentou a sua representante.

Ainda na sessão de abertura, o ministro da Saúde, Manuel Pizarro, apresentou duas medidas propostas no orçamento para 2023: a distribuição dos medicamentos hospitalares em regime de proximidade, na farmácia de proximidade, e a introdução de um mecanismo de renovação automática da medicação crónica nas farmácias de ambulatório. Para o ministro, estas novidades são importantes porque facilitarão a vida de muitos portugueses, contribuindo para melhorar o acesso – prioridade do Governo sinalizada pelo seu ministro.

Na questão do acesso, o ministro destacou ainda a assinatura, esta semana, de um protocolo entre os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) e a Agência para a Modernização Administrativa (AMA) para a instalação de novos Balcões SNS 24. Além disso, de acordo com Pizarro, o Governo está também focado na promoção da saúde e na prevenção da doença.

No final do discurso, o ministro agradeceu o esforço dos portugueses e dos profissionais de saúde durante a pandemia; pediu que, não desvalorizando os riscos, se encarasse o inverno sem alarmismos, continuando “sem desfalecimento” a vacinar; reconheceu o esforço dos enfermeiros e dos farmacêuticos que se encarregaram da imunização; e, por último, agradeceu às associações de doentes o “trabalho quotidiano de aumentar a literacia” e “mobilizar as pessoas para serem ativas na proteção da sua saúde”.

Antes da mesa-redonda “O que nos ficou da pandemia? O retrato dos novos tempos que vivemos e qual o caminho que devemos seguir”, Xavier Barreto, Presidente da Direção da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH), concretizou uma apresentação sobre “A participação ativa dos cidadãos na contrição de um sistema de saúde mais sustentável”.

Antes, Xavier Barreto adiantou ao Healthnews que, na sua apresentação, o mais importante era “percebermos que a participação pública pode fazer a diferença, pode melhorar a qualidade dos cuidados, pode claramente contribuir para termos um sistema de saúde mais sustentável”.

“A questão é se nós temos ou não mecanismos que incentivem a participação pública e, se não temos, como é que os podemos promover. O que é que nós podemos mudar, por exemplo, ao nível do financiamento para que a participação pública seja mais incentivada. Eu acredito que a participação pública é um instrumento fundamental, que temos que o promover e que, para isso, temos que fazer uma série de alterações na relação entre os hospitais e os doentes, mas também no que respeita ao financiamento dos hospitais”, acrescentou.

Na mesa-redonda, moderada pela jornalista Marina Caldas, os oradores foram: Maria do Rosário Zincke, André Biscaia (Presidente da Direção da USF-AN), Ana Tenreiro (Direção da ANF), Joana Vilas Boas (coordenadora dos temas de cuidados de saúde da Direção de Sistemas Informáticos dos SPMS) e Catarina Marcelino (Vice-Presidente do Conselho Diretivo do Instituto de Segurança Social).

Catarino Marcelino começou por dizer que “temos que retomar a humanização do SNS” e ultrapassar situações que surgiram durante a pandemia, na qual considera que Portugal “fez um bom trabalho”, até porque “somos bons a fazer coisas em stress”. Nestes tempos conturbados, “o trabalho em parceria” foi positivo, e merece continuidade.

“A área social não pode viver distante da saúde. Nós e a saúde temos que estar lado a lado para responder aos cidadãos. Sobretudo na área do envelhecimento, cada vez mais é fundamental que possamos trabalhar em conjunto, e a verdade é que ainda temos um longo caminho para fazer”, defendeu.

No combate à Covid-19, “a proteção civil foi muito importante”, sendo que “a forma de organização dos militares ajudou-nos muito”, e “ter o setor social presente foi, de facto, fundamental”, referiu também Catarino Marcelino.

Já Joana Vilas Boas não se lembra de alguma vez ter visto um “alinhamento tão grande”, e embora perceba as afirmações da sua colega de painel, vê a humanização da prestação de cuidados “a voltar com uma força ainda maior”. Na pandemia, o sentido de emergência foi fundamental para quebrar barreiras e burocracias, e até “uma série de preconceitos (…) foram combatidos”, com impacto positivo na integração e fluidez dos processos.

Ana Tenreiro, por sua vez, destacou a importância da Operação Luz Verde para as farmácias e os farmacêuticos, bem como de aprender com os erros, ter menos burocracia, agir mais e colocar a pessoa no centro dos cuidados. Mostrando-se confiante na partilha de dados em saúde, referiu ainda que “temos uma porta aberta para começarmos a dialogar uns com os outros”.

Segundo Joana Vilas Boas, “há cada vez mais esta consciencialização de que é preciso partilhar o perfil do utente com todos os profissionais que giram à volta dele”. Os profissionais já sinalizaram a falta de um processo clínico único e essa questão já está a ser trabalhada.

Por seu lado, André Biscaia destacou o papel dos cuidados de saúde primários, afirmando que beneficiámos de existir na sociedade portuguesa uma cultura de cuidados de saúde primários e de haver figuras de referência como o enfermeiro de família e o médico de família.

Para André Biscaia, ao longo da pandemia, a missão do SNS de proteção da saúde individual e coletiva foi cumprida, embora melhor no início do que no fim, não se podendo negar as vítimas da ausência de cuidados. Fica a lição de que “é muito importante” manter um sistema robusto e a memória positiva de não se terem criados “guetos”, em oposição ao perigo de fechar portas a alguns residentes.

André Biscaia salientou ainda que o processo eletrónico clínico, a estrutura de saúde familiar e a participação das pessoas e das associações podem contribuir para o fortalecimento do sistema de saúde, e que o trabalho intersectorial “é fundamental”.

No mesmo painel, Maria do Rosário Zincke disse que a pandemia “deixou a nu lacunas muito grandes”. “A lacuna que eu considero mais grave e mais arrepiante deu-se a nível das respostas sociais, dos lares. Viu-se o que é que se passava nos lares. E já se passava antes da pandemia, só que nós não dávamos por isso”, continuou.

Na opinião de Maria do Rosário Zincke, “é fundamental que a saúde e a segurança social pensem e atuem em conjunto no que diz respeito àquelas pessoas que vivem nos equipamentos sociais”, e é preciso assegurar a sustentabilidade do terceiro setor.

Uma posição corroborada por Catarina Marcelino, que afirmou ser importante “integrar estas áreas” que “têm culturas muito diferentes” e “deixarmos a quem faz bem a possibilidade de fazer”. E André Biscaia informou que a USF-AN tem estado a trabalhar na área da prescrição social.

No final do debate, Maria do Rosário Zincke deixou um apelo: “Invistam mais no setor social. Nós temos um potencial enorme (…), é só dar um pequeno salto para reforçar o nosso papel. Porque nós estamos dispostos.”

HN/Rita Antunes

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