Demissão Silenciosa nos cuidados de saúde, Mais do que um problema social, um problema no cuidar!

André Martins
Enfermeiro Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica
Mestre em Enfermagem à Pessoa em Situação Crítica
Professor Assistente Convidado da ESEL

demissão silenciosa (quiet quitting), tem ganho mais expressão e visibilidade social no pós-pandemia como uma estratégia pessoal na prevenção do burnout e na preservação da vida pessoal, sendo muito utilizada pelos Millennials (nascidos entre 1981 e 96), mas sobretudo pela Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012).

O principal objetivo dos profissionais que optam por uma demissão silenciosa não é, necessariamente, a procura da demissão, mas sim evitar longos períodos de trabalho (nomeadamente pelo trabalho extraordinário), prevenindo a exaustão e otimizando a sua qualidade de vida.

Nos períodos do pico da pandemia, se houve profissões que se virão inundadas pela sobrecarga de trabalho, elas foram as da área da saúde.

Apelidados de heróis, de uma forma geral, nenhum profissional quis vestir a capa de super-herói, reivindicando, contudo que, em momento próprio, fosse reconhecida essa dedicação e esse “heroísmo”, não necessariamente em valor monetário, mas por compensação “em género”, nomeadamente em melhores condições de trabalho, melhores dotações (sem necessidade de recurso a horas extraordinárias), e outras condições adequadas ao seu estatuto de “heróis” (ex.: diminuição da idade da reforma, maior número de dias de férias) .

Todavia, isso não aconteceu de uma maneira geral no mundo, e muito menos em Portugal. Bem pelo contrário.

Período pós-pandemia – momento de oportunidades

Aproveitando o cansaço que os profissionais na área da saúde tinham, nomeadamente no sector público, várias foram as entidades privadas que optaram por apresentar propostas de contrato com uma melhoria salarial, levando à saída de muitos profissionais, com vários anos de experiência, para este sector.

Também a exposição a um mundo global, nomeadamente sem fronteiras (como o espaço Schengen), levou a que muitos destes profissionais saíssem do país em busca de melhores condições de trabalho (contribuindo ainda mais, para o êxodo, nomeadamente das instituições públicas).

Excluindo assim os que se demitiram (que se poderão também incluir no fenómeno da grande demissão – great resignation), muitos dos que ficaram vêem-se a braços com uma ainda maior sobrecarga de trabalho, com necessidade por parte dos hospitais EPE de maior produtividade, na procura de satisfazer uma população carente em cuidados de saúde, com tradição histórica de atraso em consultas e cirurgias.

Enfermagem – uma profissão skill-mixed exausta e subaproveitada

À Enfermagem, no período de pandemia, foi solicitado um investimento não só ao nível do controlo da doença, mas também na instituição de um programa de vacinação amplamente reconhecido e aplaudido internacionalmente.

De longa data vem o reconhecimento internacional da profissão e da sua formação, de que o investimento em Enfermeiros e em cuidados de Enfermagem, tem um claro impacto direto na melhoria da qualidade de vida das populações, e uma melhoria da eficácia dos planos de saúde nos vários níveis dos cuidados de saúde (primários – ex.: centros de saúde; secundários – ex.: hospitalares; terciários – ex.: cuidados integrados).

No nosso país, pouco tem sido este investimento que se tem centrado sobretudo nos cuidados médicos, sendo estes (ainda na sua maioria), aqueles que são contabilizados para o financiamento das EPE, não se valorizando os atos ou consultas de Enfermagem, de uma forma geral.

Também os profissionais de Enfermagem, nos seus diferentes graus de diferenciação, não têm sido aproveitados no seu máximo potencial, como até foi possível constatar na carreira que vigorou entre 2010 e 2018, e na qual o Enfermeiro Especialista desapareceu, contrariando toda a evidência clínica internacional.

Ora, cerca de duas décadas de desmotivação e desvalorização profissional, culminaram com um período pós-pandémico de sobrecarga de trabalho, exaustão emocional e sofrimento ético, que em muito tem contribuído para empurrar os Enfermeiros para a demissão da profissão, nem que seja silenciosa.

Demissão silenciosa na Enfermagem – quando a exaustão diminui a empatia

A Enfermagem constitui-se como mais do que uma profissão, como uma disciplina centrada no cuidar ao Outro. É uma profissão exigente ao nível do conhecimento técnico-científico (pela sua necessária e constante atualização), mas particularmente exigente, porque procura corresponder aquelas que são as necessidades do Outro, tendo em conta as suas dimensões bio-psico-social.

Sendo que a principal característica da demissão silenciosa é o re-centramento do profissional em si e não no Outro, aquilo que se constata é uma consequente diminuição de empatia sobre a situação do Outro, ferramenta fundamental para a prática da Enfermagem.

Por outro lado, os profissionais centram-se no seu próprio crescimento pessoal, desprezando o seu crescimento em equipa, minando assim aquele que tem sido o principal método de trabalho, não estando também, nalguns casos, disponíveis para assumir e desempenhar funções de formação de pares, ou ocupar lugares de liderança, uma vez que estes não são comumente remunerados ou ressarcidos, e representam trabalho acrescido.

Intervenção urgente – uma emergência

Não existe solução milagrosa e claramente que vivemos uma questão geracional cujos impactos reais ainda estamos longe de ver, mas que nos deve preocupar a todos no futuro.

É certo, porém, que não existe saúde sem cuidado e não existe cuidado sem Enfermagem, e se por um lado a falta de Enfermeiros é vista como problemática, por outro lado, várias têm sido as pressões para esvaziar a profissão do seu conteúdo funcional (pelo menos em parte), e assim limitar a sua necessidade.

Da mesma maneira, é hoje, mais do que nunca necessário, que os Enfermeiros se consciencializem que o foco da sua ação é o outro e as suas necessidades, e que a sua profissão é exigente dentro e fora do horário de trabalho. Contudo, as instituições necessitam de reconhecer também que os limites às horas trabalhadas são fundamentais e devem ser cumpridas, não só por uma questão de segurança nos cuidados, mas também para poderem obter uma maior e melhor produtividade dos seus profissionais.

Por último, são necessárias políticas sérias que otimizem o papel das diferentes profissões na área da saúde, reconhecendo áreas de skill-mix entre elas, contrariando a pressão dos lobbies, mas promovendo aquilo que as pessoas precisam: mais e melhores cuidados de saúde aos diferentes níveis de atuação.

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