Acácio Gouveia Especialista em Medicina Geral e Familiar

O tabaco, o ministro, a comunicação social e outros

05/24/2023

“Onde morre a vergonha nascem os expedientes desonrosos.”
Camilo Castelo Branco

Continuando as reflexões sobre a temática do tabaco e dos players (como agora se usa dizer) em campo, é curioso verificar que a sua abordagem, passa por esfumar o objetivo da legislação – proteger a saúde da nação por via da diminuição efetiva do consumo de tabaco – e, por outro lado, manter atrás duma cortina de fumo os putativos perdedores da política em causa: a indústria tabaqueira. Basta ver os títulos dos jornais (“Governo ataca fumadores”, etc.) e constatar a quase exclusiva publicitação dos testemunhos e opiniões dos críticos da proposta de lei, em contraste com a ausência de contraditório (com exceção de elementos do governo), para concluir há um viés tremendo na discussão pública. Será que ninguém tentou contactar a OM, as sociedades médicas ou, pelo menos, um pneumologista ou um oncologista? Esta ausência torna-se mais notada se tivermos em conta que os assuntos sobre saúde são motivo de enfoque pela comunicação social e a presença de médicos é frequente, nomeadamente na televisão. Espantosamente, parece que não temos uma palavra a dizer, como se o tabaco, num ápice deixasse de ter a ver com saúde.

Em relação à Big Tabacco, é preciso reconhecer que o objetivo deste setor económico não é de modo algum atentar contra a saúde dos consumidores e só não inventaram um tabaco inofensivo porque tal é impossível. Como tal, o propósito do negócio é, se não aumentar os lucros, pelo menos evitar que decresçam, mesmo que à custa de colossais danos para saúde dos consumidores. Os argumentos negacionistas, de tão insustentáveis, já não convencem ninguém e tornaram-se mesmo contraprocedentes. Por isso, a estratégia saída dos gabinetes de relações públicas das tabaqueiras estabeleceu um guião atualizado: 1) passar como em vinha vindimada pelo tema saúde (não vá alguém se aperceber do elefante na sala!); 2) hipertrofiar e distorcer farisaicamente o argumento liberdade e direitos; 3) inventar ganhos fiscais e 4) manter na sombra as Tabaqueiras. A talho de foice registe-se o assombroso “esquecimento” a que é votada a gigantesca pegada ecológica infligida pela Big Tabacco.

Mas regressemos à ausência do parecer médico na comunicação social. Que os meios de comunicação social não os tenham abordado é deplorável, mas nada desculpa o silêncio a que Ordem e Sociedades Médicas se remeteram. O que está em causa são medidas legislativas destinadas a proteger a saúde, que é o amago da nossa profissão. Porquê então este mutismo tão desadequado? Acredito que já tenha passado tempo suficiente sobre anteriores posições da OM sobre o tabaco que, por pudor, melhor será manter escondidas sob um manto de sedimentos que o tempo vá caridosamente espessando. Contudo, o mutismo atual vem na esteira desse passado pouco respeitável.

Para tentar explicar este alheamento desprestigiante talvez se possam alvitrar submissão ou acanhamento perante o establishment dos opinion makers urdidores do suposto senso comum, que, neste tema, ditam a “tolerância para com os fumadores”. Assim sendo, seria de bom tom e avisado deixar claro que a OM renuncia, obediente, ao “fundamentalista antitabaco”. O silêncio da classe médica significa abdicar do mais elementar sentido crítico aceitando tal rolha e submeter-se à autocensura. Demite-se a classe das suas obrigações cívicas e recusa-se a intervir num domínio que é o seu por direito e obrigação.

Já agora, onde param a Liga Portuguesa Contra o Cancro? A Liga, que faz um magnifico trabalho no acompanhamento dos doentes oncológicos e no rastreio do cancro da mama, quando se trata dos cancros causados pelo tabaco, opta pelo low profile. Deprimente!

Termino com uma derradeira perplexidade: onde param os ambientalistas? Vastas áreas desflorestadas para dar lugar a plantações gulosas de água, biliões de beatas a caminho do oceano-esgoto parecem não os incomodar.

 

Acácio Gouveia
[email protected]

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Cáritas de Coimbra em projeto europeu para demência

Advertisement

Uma tecnologia baseada em sensores de inteligência artificial 3D, testada num projeto europeu liderado em Portugal pela Cáritas Diocesana de Coimbra, foi divulgada hoje como solução para melhorar o cuidado de pessoas com demência.

MAIS LIDAS

Share This