Sedativo animal adicionado ao fentanil dificulta método para reverter overdoses nos EUA

24 de Junho 2023

Um poderoso sedativo animal utilizado no consumo de drogas ilícitas está a complicar a resposta dos EUA à crise de opioides, dificultando métodos de longa data para reverter overdoses e tratar o vício.

A xilazina pode causar ferimentos graves na pele, mas ainda não é claro se está a resultar em mais mortes, como sugerem as autoridades em Washington.

Dados iniciais sugerem que a droga pode inadvertidamente estar a diluir os efeitos do fentanil, o opioide sintético responsável pela maioria das mortes por overdose, de acordo com profissionais de saúde e polícias na linha de frente dos esforços em Nova Jersey, Nova Iorque e Pensilvânia.

Há um amplo consenso, no entanto, de que são necessárias muito mais informações para entender o impacto da xilazina, criar formas de interromper o fornecimento ilegal e desenvolver medicamentos para reverter os seus efeitos.

“Não sabemos se a xilazina está a aumentar o risco de overdose ou a reduzir o risco de overdose”, sublinhou Lewis Nelson, da Rutgers New Jersey Medical School, que aconselha reguladores federais sobre segurança de medicamentos.

“Tudo o que sabemos é que há muitas pessoas a tomar xilazina e muitas delas estão a morrer mas isso não significa que a xilazina esteja a causar isso”, acrescentou.

Em quase todos os casos, a xilazina – uma droga para sedação de cavalos e outros animais – é adicionada ao fentanil, o opioide potente que pode ser letal mesmo em pequenas quantidades.

Alguns utilizadores dizem que a combinação, apelidada de “tranq” ou “tranq dope”, proporciona uma euforia mais duradoura, mais parecida com a heroína, que foi amplamente substituída pelo fentanil nos mercados de drogas dos EUA.

Este medicamento beneficia os revendedores, pois geralmente é mais barato e mais fácil de obter do que o fentanil.

‘Sites’ chineses vendem um quilo entre os 6 e 20 dólares (entre 5,49 e 18,30 euros), sem receita médica. Os produtos químicos utilizados para produzir fentanil podem custar 75 ou mais dólares (cerca de 68 euros) por quilo.

Os efeitos da xilazina são fáceis de detectar: os utilizadores experimentam um estado de transe e, às vezes, desmaiam, expondo-se a assaltos ou violações.

“É uma reação tardia. Eu posso estar a andar na rua, 45 minutos depois e, então, acordo, a tentar entender o que aconteceu”, explicou Dominic Rodriguez, que é um sem-abrigo que luta contra o vício.

Os reguladores dos EUA aprovaram a xilazina em 1971 para sedar animais para cirurgia, procedimentos odontológicos e propósitos de manuseio.

Em humanos, a droga pode fazer com que a respiração e os batimentos cardíacos diminuam, mas também está ligada a úlceras e abcessos graves na pele, que podem levar a infeções, tecido apodrecido e amputações.

Os especialistas discordam sobre a causa exata das feridas, que são muito mais profundas do que as observadas com outras drogas injetáveis.

A introdução da droga criou uma série de novos desafios, pois a naloxona, um medicamento utilizado para reanimar pessoas que pararam de respirar, não reverte os efeitos da xilazina.

Serviços médicos de Filadélfia enfatizaram, no entanto, que a naloxona ainda deve ser administrada em todos os casos de suspeita de overdose, uma vez que a xilazina é quase sempre encontrada em combinação com o fentanil.

Sem medicamento de reversão aprovado para a xilazina, o grupo Savage Sisters começou a carregar tanques de oxigénio para ajudar a reanimar as pessoas.

LUSA/HN

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