Prof. Tiago Torres: Dermatite atópica afeta até 15% das crianças e entre 7 a 10% dos adultos

09/22/2023
A incidência da dermatite atópica tem vindo a aumentar nos países desenvolvidos. De acordo com o Prof. Doutor Tiago Torres, dermatologista no Centro Hospitalar Universitário de Santo António, no Porto, e professor no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, «a presença de certos genes predispõem ao desenvolvimento da doença. E há depois um conjunto de fatores ambientais que podem levar ao seu aparecimento».

HealthNews – A dermatite atópica é uma doença inflamatória crónica da pele. Quais são os principais sinais e sintomas?

Tiago Torres (TT) – A dermatite atópica é uma doença inflamatória crónica da pele que se manifesta com lesões de eczema. Aliás, a dermatite atópica também pode ser chamada “eczema atópico”.

As lesões de eczema são habitualmente lesões de pele vermelhas, muitas vezes com alguma descamação e, acima de tudo, associadas a muito prurido (comichão). O prurido é o sintoma que mais incomoda o doente e aquele que tem mais impacto físico e psicológico.

A maioria dos casos surge na infância, sendo que há um grupo de doentes (cerca de 20%) que pode desenvolver dermatite atópica na idade adulta.

HN –  Quais as regiões do corpo tipicamente afetadas e que causam maior desconforto aos doentes?

TT – As lesões localizam-se em áreas características, tais como as zonas de flexão dos braços e a região posterior das pernas, mas também podem atingir a face, os punhos, o pescoço e outras zonas.

Clinicamente, a dermatite atópica manifesta-se também diferentemente ao longo da idade. No lactente localiza-se mais na face e nas regiões extensoras dos braços e das pernas. Posteriormente, com a idade, atinge mais as zonas que antes referi.

HN –  A incidência desta patologia tem vindo a aumentar. Trata-se de um sinal positivo ou negativo? Significa que há mais pessoas diagnosticadas ou mais pessoas em “dor”?

TT – A dermatite atópica é uma doença muito prevalente. Estima-se que possa afetar até 15% das crianças e entre 7 a 10% dos adultos. Mas, apesar da sua elevada prevalência, na maioria das vezes são formas ligeiras. Só cerca de 20 a 25% destes casos são formas moderadas a graves, que necessitam de tratamentos mais específicos.

A incidência tem vindo a aumentar essencialmente nos países desenvolvidos.  Acredita-se que haja causas ambientais, inerentes ao desenvolvimento da sociedade, tais como a poluição, que possam ter aqui algum papel.

Quanto ao facto de se estarem a fazer mais diagnósticos, poderá ter a ver também com um maior conhecimento sobre a doença por parte dos doentes e da sociedade em geral. É necessário continuar a trabalhar na questão da consciencialização, do conhecimento e da informação sobre a dermatite atópica, quer para doentes, quer para a sociedade em geral.

HN –  Quais as principais causas desta doença?

TT – A dermatite atópica é uma doença inflamatória, portanto, imunomediada, crónica, em que as causas são genéticas e ambientais.

Há naturalmente um componente genético importante. Sabemos que a presença de certos genes predispõem ao desenvolvimento da doença. E

há depois um conjunto de fatores ambientais que podem levar ao seu aparecimento, como certos microorganismos, alergénios e poluição.

HN – Ainda não há cura para esta patologia. Mas há tratamento.

TT – Essa é uma informação muito importante para os doentes. Não havendo uma cura, existem hoje em dia tratamentos eficazes que permitem controlar os casos mais graves da doença. E quando falamos em “controlar a doença” estamos a falar em diminuir as lesões da pele e melhorar também os sintomas, o prurido. Isso é muito importante porque, com os tratamentos, é possível melhorar a qualidade de vida dos doentes.

Esses tratamentos são relativamente recentes. Até 2017 não tínhamos medicamentos específicos para a dermatite atópica. Desde então, derivado do maior conhecimento que existe sobre os mecanismos da dermatite atópica, têm sido desenvolvidas e aprovadas terapêuticas que atuam em alvos muito específicos do mecanismo da doença. Permitem uma maior eficácia e também maior segurança no tratamento dos doentes, ou seja, menos risco de efeitos secundários.

Hoje em dia já existem vários medicamentos aprovados, quer injetáveis, quer orais. A grande evolução terapêutica tem sido essencialmente para as formas mais graves, aquelas que precisam de medicamentos sistémicos.

HN – O tratamento da dermatite atópica exige um cuidado integral. Qual é a importância do cuidado diário da pele?

TT – O cuidado diário da pele é muito importante porque a dermatite atópica é uma das doenças de pele que, claramente, precisa da aplicação diária de hidratante.

A aplicação do hidratante é fundamental porque, na dermatite atópica, a pele tem um defeito na barreira da pele que permite não só uma maior facilidade de penetração de microorganismos e alergénios externos, mas também menor capacidade de manter a pele hidratada.

Por isso, na dermatite atópica, é fundamental esse cuidado diário de aplicação do emoliente ou do hidratante, independentemente da gravidade, da idade ou do momento da doença. Quer a pessoa esteja bem; quer esteja mal. Ou seja, é importante na fase aguda e na fase de controlo, porque esse defeito existe sempre.

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