Autarca de Penafiel apreensivo com encerramento da urgência de obstetrícia

2 de Novembro 2023

O presidente de Penafiel disse hoje estar “apreensivo” com o encerramento da urgência de obstetrícia e do bloco de partos do hospital Padre Américo, naquela cidade, que serve meio milhão de pessoas do Tâmega e Sousa.

“Estamos a acompanhar a situação com muita apreensão, porque o encerramento de qualquer urgência é sempre uma circunstância que gera grande preocupação na comunidade. Mas estamos a falar de uma área que é sensível, a área da obstetrícia e da ginecologia”, afirmou Antonino Sousa, em declarações à agência Lusa.

Desde quarta-feira, o hospital de Penafiel tem “encerrado para o exterior até novas indicações”, o bloco de partos e a admissão para o serviço de urgência de obstetrícia e ginecologia.

A decisão do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, sediado em Penafiel, decorre da “indisponibilidade de médicos que permitam completar as escalas de urgência”.

Os utentes têm a indicação que devem “procurar o atendimento, para aquelas situações, no Hospital de São João, no Porto”.

O hospital de Penafiel, juntamente com o de Amarante, no distrito o Porto, integra o Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa (CHTS), responsável por assistir uma população de quase 600 mil habitantes que residem naquele território, constituindo a segunda maior urgência do norte do país.

Já no dia 03 de outubro, o hospital de Penafiel tinha solicitado o “desvio de doentes da urgência externa”, por não conseguir reunir o mínimo de especialistas em cirurgia geral devido à recusa dos médicos em fazer mais horas extraordinárias.

O presidente da Câmara de Penafiel recorda hoje que a situação ocorre numa das regiões mais jovens do país, onde, notou, se regista “um número de pactos bastante significativo, que vai contrapondo o inverno demográfico que vive o país”.

Disse, também, ter conhecimento de que a urgência de pediatria “só tem escala para mais 12 dias”, o que significa, “provavelmente que, daqui por 12 dias, será também a pediatria a estar encerrada”.

“Isto é verdadeiramente preocupante, isto é exatamente aquilo que nunca devia acontecer”, acentuou, considerando que o que se passa no país, com a questão das urgências, traduz “um caos na área da saúde”.

“Lamentamos que não exista por parte do ministério e do SNS capacidade para encontrar soluções e pôr cobro este caos na área da saúde, que gera um alarmismo social muito grande”, declarou Antonino Sousa.

O autarca anunciou, entretanto, que está prevista para sexta-feira, às 20:30, junto ao hospital Padre Américo “uma manifestação da sociedade civil para dar nota da preocupação que toda a população está a viver”, face ao problema da urgência hospitalar.

“É uma questão que nos deve mobilizar a todos”, anotou, referindo que estará presente nessa manifestação.

Mais de 30 hospitais de norte a sul do país estão a enfrentar constrangimentos e encerramentos temporários de serviços devido à dificuldade das administrações completarem as escalas de médicos.

Em causa está a recusa de mais de 2.500 médicos em fazerem mais do que as 150 horas extraordinárias anuais a que estão obrigados.

Esta crise já levou o diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde (SNS), Fernando Araújo, a admitir que novembro poderá ser dramático, caso o Governo e os sindicatos médicos não consigam chegar a um entendimento.

As negociações entre sindicatos e Governo já se prolongam há 18 meses e há nova reunião marcada para sábado.

LUSA/HN

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

O relatório OCDE e o resto: o que os números da saúde não mostram

Praticamente toda a população portuguesa tem cobertura para um conjunto central de serviços de saúde, atingindo a universalidade. Contudo, apenas 58% dos cidadãos dizem estar satisfeitos com a disponibilidade de cuidados de qualidade, um valor que fica abaixo da média dos países mais desenvolvidos

Prevenção em Contraciclo: Os Dois Rostos da Qualidade da Saúde em Portugal

O relatório “Health in a Glance 2025” da OCDE revela um sistema de saúde português com contrastes. Enquanto a adesão ao rastreio do cancro da mama, com 55,5%, fica aquém da média da OCDE, a prescrição de antibióticos mantém-se elevada, sublinhando desafios antigos na prevenção de doenças e no uso prudente de medicamentos

Assimetrias Regionais em Saúde Desenham Dois Países Diferentes Dentro de Portugal

Um retrato detalhado do sistema de saúde português revela um país cindido por assimetrias regionais profundas. Enquanto o litoral concentra hospitais e especialistas, o interior enfrenta desertificação médica, acessos limitados e piores resultados de saúde, desde uma menor esperança de vida a uma maior mortalidade prematura. As políticas públicas existentes são apontadas como insuficientes para travar este fosso, que espelha desigualdades socioeconómicas

Disparidades de género na saúde: Homens morrem mais cedo, mulheres vivem mais anos doentes

Em Portugal, como no resto da OCDE, os homens vivem em média menos 5,8 anos do que as mulheres, mas o paradoxo de género revela-se nos detalhes: elas passam uma proporção significativamente maior da sua vida em pior estado de saúde. Esta dupla realidade, com os homens a morrerem mais cedo de causas externas e doenças cardiovasculares e as mulheres a carregarem um fardo pesado de doenças crónicas e incapacitantes, desafia os sistemas de saúde a desenvolverem respostas mais direcionadas

Saúde dos Profissionais de Saúde: O Elo Mais Fraco do Sistema em Portugal

O relatório da OCDE revela uma crise silenciosa a minar o SNS: o esgotamento extremo dos seus profissionais. Com 47% dos médicos e 52% dos enfermeiros com burnout, Portugal destaca-se negativamente na Europa. Este não é apenas um problema de bem-estar individual, mas uma ameaça direta à qualidade e segurança dos cuidados de saúde prestados à população

Relatórios internacionais alertam para dupla desigualdade na saúde: entre géneros e entre ricos e pobres

Portugal observa uma transformação subtil na forma como encara a população mais velha. Para lá dos números, ganham corpo iniciativas que procuram responder ao desafio do isolamento e da inatividade, envolvendo autarquias, instituições de solidariedade e os próprios idosos na construção de respostas que vão do exercício físico ao apoio comunitário. Um movimento que tenta, devagar, mudar uma cultura

Literacia em saúde digital: novo fosso geracional em Portugal

A transição digital em saúde, promessa de eficiência, está a criar uma nova forma de exclusão em Portugal. Com 38% dos idosos incapazes de usar as plataformas, o fosso geracional ameaça o acesso aos cuidados. Da marcação de consultas à renovação de receitas, a falta de literacia digital deixa para trás os mais vulneráveis, transformando a inovação numa barreira. Urge humanizar a digitalização

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights