Prof. Doutor Gil Faria Cirurgião especialista em Cirurgia da Obesidade e Metabolismo; Coordenador dos Centros de Tratamento da Obesidade do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e do Grupo Trofa Saúde; Professor da FMUP; Investigador clínico na área da Cirurgia Metabólica e Obesidade

Cirurgia metabólica: será segura?

12/12/2023

Um dos receios mais frequentes dos doentes com obesidade é acerca da segurança e complicações da cirurgia metabólica. Apesar da cirurgia ser um tratamento radical, as técnicas de mini-invasão e os protocolos de recuperação rápida permitem uma cirurgia com elevado perfil de segurança e rápida recuperação funcional.

Hoje em dia, as cirurgias são realizadas através de pequenas incisões na pele, por onde são introduzidos os instrumentos de trabalho e uma pequena câmara de vídeo, que permitem completar todo o procedimento com uma excelente visualização de todos os órgãos e a realização de procedimentos muito complexos. Esta tecnologia (laparoscopia) assegura a diminuição da agressão ao organismo, a diminuição dos riscos associados à cirurgia e um rápido regresso à vida ativa.

As principais complicações decorrentes do ato cirúrgico são raras (<2%) e incluem: hemorragias, tromboses ou infeções intra-abdominais. A maioria pode ser minimizada utilizando uma técnica cirúrgica cuidada e efetuando as necessárias profilaxias (prevenções) de infeção e trombose.

 A diferenciação dos cirurgiões e de toda a equipa envolvida nestas cirurgias, a organização em centros de tratamento dedicados, e a evolução tecnológica fazem com que, atualmente, a cirurgia seja extraordinariamente segura. Comparando com outros riscos do dia a dia, pode-se dizer que a probabilidade de morrer após a cirurgia bariátrica é mais baixa do que num acidente de viação e apenas ligeiramente superior ao risco por queda em escadas.

Por outro lado, a obesidade está associada a doenças em praticamente todos os órgãos e sistemas do corpo humano: diabetes, hipertensão arterial, dislipidemia, doença cardíaca, doença vascular cerebral, diversos tipos de cancro, etc. Está associada a cerca de 20% de todas as mortes e a mais de 10% de todos os gastos em saúde. O excesso de peso é o principal fator associado à perda de anos de vida saudável em Portugal. Um doente obeso tem um risco de morte cerca de duas vezes superior e pode ter uma esperança de vida reduzida em 10 anos.

A Medicina continua a procurar soluções para a epidemia global da obesidade e todas as semanas surgem novos tratamentos “revolucionários”. Infelizmente, a maioria não é capaz de produzir perdas de peso substanciais e duradouras. A opção por métodos pouco eficazes ou a ausência de terapêutica também acarretam riscos associados à progressão da doença.

A cirurgia metabólica é a solução mais eficaz para a obesidade grave ou resistente. Os seus benefícios são impressionantes e é o único tratamento que demonstra uma redução da probabilidade de morte por outras causas (de até 90%). Existe uma elevada taxa de controlo ou reversão da maioria das doenças associadas à obesidade, a incidência de diversos tipos de cancro é reduzida para menos de metade e a progressão para diabetes reduz cerca de 90%. A mortalidade específica também diminui significativamente para doenças como o cancro, diabetes e doença cardíaca.

Podemos então concluir que, embora haja um pequeno risco associado a um tratamento cirúrgico, os benefícios conseguidos pela cirurgia são infinitamente maiores, evitando a progressão da própria doença.

 

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