Ricardo Loureiro; Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Reabilitação; Bolseiro de Doutoramento na Unidade de Investigação em Ciências da Saúde: Enfermagem (UICISA: E), da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC).

As emoções e o seu papel… uma reflexão!

06/12/2024

Este artigo de opinião aborda uma questão muito importante para quem, como eu, é profissional de saúde, e realiza também atividades de investigação em Ciências da Saúde, nomeadamente em Enfermagem. Propõe-se com este artigo um estímulo à inquietação e reflexão críticas de cada leitor, à medida que se desenvolve, embora de forma sumária, um percurso evolutivo entre duas personalidades que em muito já contribuíram no âmbito do estudo e investigação na área das emoções. Este percurso inicia-se com Espinosa e o seu legado, entretanto continuado por António Damásio.

A relevância de Baruch Espinosa reside na compreensão neurofisiológica das emoções, mas igualmente pela influência que teve e continua a ter na investigação produzida por António Damásio, até aos dias de hoje.

Para Espinosa, o termo afeto acarreta um enorme significado, que importa clarificar, pois o seu principal interesse de investigação centrou-se no mecanismo processual dos afetos. Ao definir-se afeto como algo que pode potenciar ou reduzir a ação de um corpo, Espinosa entendia que a gestão e regulação afetivas representa uma condição essencial para o equilíbrio da vida individual, assim como para a sua própria felicidade. E relativamente a Damásio, será a palavra afeto, à semelhança de Espinosa, a questão nuclear nos estudos que tem desenvolvido?

Neste propósito, António Damásio, procura respostas para o comportamento individual com base nas emoções, ao considerar que exercem um papel fundamental em toda a ação e interação humanas, pelo que é impensável que o processo de desenvolvimento social e cultural seja inerente apenas a uma base racional. Deste modo, paralelamente ao que assume Espinosa, por meio dos afetos, o neurocientista preconiza que as emoções têm uma função regulatória na vida de cada pessoa, facilitando, por exemplo, a capacidade de adaptação, ao longo da sua existência. No seu entendimento, as emoções interferem no processo de sentir, corroborando com Espinosa, assumindo que estas surgem antes dos sentimentos.

As semelhanças entre as teorias de Espinosa e Damásio fazem sentir-se num outro plano. Deste modo, ambos defendem que a gestão dos afetos e das paixões, por parte do filósofo, e dos sentimentos, presentes em Damásio, são promotores de crescimento individual, social e cultural, em detrimento de paixões tristes, como a inveja, o ciúme, o medo, o desprezo e a repugnância, consideradas patológicas e colocando em causa o bem-estar emocional no futuro de cada pessoa.

O corpo e a mente estão, assim, em relativa harmonia, pois a interação entre si é o meio pelo qual existem respostas autonómicas, endócrinas e músculo-esqueléticas inerentes à condição humana. Ou seja, as emoções contribuem de forma decisiva para preparar o corpo para a ação. Esta constatação não corrobora com as posições da filosofia cartesiana, que estabelecia uma total autonomia do corpo e da mente, desprovidas de qualquer relação entre as duas entidades.

Damásio contraria Descartes e Kant, perspetivando um comportamento humano assente numa base racional e intimamente ligado a aspetos emocionais, segundo o qual, o homem pode, só assim, ser totalmente livre na sua existência.

Fruto das investigações em neurobiologia, o autor considera ainda que esta sua tese pode contribuir para se compreenderem de forma mais robusta situações problemáticas de cariz universal e que se relacionam com questões afetivas, éticas, culturais e religiosas entre os seres humanos, representando simultaneamente num enorme desafio para o pensamento científico da atualidade.

Os sistemas de emoções, como são atualmente designados na comunidade científica, descrevem de forma pormenorizada um sistema complexo de integração de processos emocionais, cognitivos e de homeostasia, envolvendo uma rede de interligações entre diversas zonas do Sistema Nervoso. Não obstante se reconhecer os avanços que a investigação científica tem realizado, é expectável e desejável mais investigação que consiga explicar ainda de forma mais sistematizada a forma como os impulsos emocionais e motivacionais influenciam a nossa forma de ser e de estar em comunidade.

 

Referências bibliográficas:

Chaves, H. V., Filho, O. N. M., Oliveira, J. C. C., & Neto, F. E. P. (2012). Contribuições de Baruch Espinosa à teoria histórico-cultural. Psicologia em Revista, 18(1), 134-147. https://dx.doi.org/10.5752/P.1678-9563 2012v18n1p134

Conter, M., Telles, M. & Silva, A. (2017). Semiótica das afeções: uma abordagem epistemológica. Conjectura filosofia e educação. 22(3), 36-48. https://dx.doi.org/10.18226/21784612

Damásio, A. R. (2004). Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia da Letras.

Damásio, A. (2017). The Strange Order of Things – Life, Feeling and the making of Cultures, versão portuguesa A Estranha ordem das coisas. A Vida, os sentimentos e as culturas humanas, Lisboa, Temas e Debates-Círculo de Leitores.

Esperidião-Antonio, V., Majeski-Colombo, M., Toledo-Monteverde, D., Moraes-Martins, G., Fernandes, J. J., Assis, M. B., & Siqueira-Batista, R. (2008). Neurobiologia das emoções. Archives of Clinical Psychiatry, 35(2), 55-65. https://doi.org/10.1590/S0101-60832008000200003

Ferreira, M. L. R. (2018). Espinosa como precursor das Neurociências: a leitura apaixonada de António Damásio. Disponível em https://sbps.spanport.ucsb.edu/sites/secure.lsit.ucsb.edu.span.d7_sbps/files/sitefiles/ferreira.pdf.

Hugo, Z. (2018). La fenomenología de la percepción en Spinoza. Revista de Filosofía, 74, 91-108. Disponível em: https://revistafilosofia.uchile.cl/index.php/RDF/article/view/51881/62135

Tomaz, C., & Giugliano, L. G. (1997). A razão das emoções: um ensaio sobre “O erro de Descartes”. Estudos de Psicologia, 2(2), 407-411. https://doi.org/10.1590/S1413-294X1997000200013

 

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Luís Montenegro: “Concordo com a necessidade de valorizar a carreira dos bombeiros e estamos a trabalhar nisso”

Hoje, no debate sobre o estado da nação, o primeiro-ministro respondeu a Inês Sousa Real que concorda que é necessário valorizar a carreira dos bombeiros, mas o Governo está “a trabalhar nisso”, e garantiu que não está desatento à violência doméstica, tendo já avançado com um despacho para a criação de um grupo de trabalho “transversal” no âmbito do apoio à vítima.

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights