Guilherme Veríssimo: “A saúde começa pela boca”

06/19/2024
A evidência científica comprova que a má saúde oral está diretamente relacionada com 23 doenças sistémicas, entre elas a diabetes e as doenças cardiovasculares, e cinco tipos de cancro. Esta realidade pode surpreender a maior parte da população, mas não os dentistas. Em entrevista ao nosso jornal, o Médico Dentista, Guilherme Veríssimo, frisa que a "saúde oral não se resume a uma questão estética", deixando alguns alertas para a importância da correta higienização dos dentes. O médico dentista aproveitou ainda para desmistificar alguns dos principais mitos associados à doença peridontal.

HealthNews (HN)- Qual a importância da saúde oral? 
Guilherme Veríssimo (GV)- A saúde oral não se resume a uma questão estética. É fundamental que as pessoas tenham uma boa higiene oral, uma vez que está ligada a inúmeras doenças. É por isso que os dentistas costumamos dizer que a saúde começa pela boca. Um sorriso saudável leva a uma boa saúde sistémica.

HN- Quais as principais patologias que resultam da falta de higiene bucal e escovagem dos dentes?
GV- Há muitas patologias da cavidade oral que são bidirecionais, isto é, as patologias sistémicas influenciam a cavidade oral e vice-versa. Isto significa que, embora o nosso sorriso seja a nossa maior arma social, é importante que sejamos capazes de garantir uma boa saúde oral. Está comprovado que a diabetes e a hipertensão arterial têm uma forte ligação com a doença periodontal. Infelizmente, em Portugal a maior parte das pessoas não está consciencializada.

Muitas vezes acham que o sangramento e os dentes abanarem é normal com a idade.

HN- O que é doença periodontal e quais são os sintomas mais comuns?
GV- A doença periodontal é uma doença inflamatória de caráter crónico não transmissível, classificada pela Organização Mundial da Saúde como sendo a mais prevalente a nível global. Carateriza-se por uma inflamação dos tecidos que suportam os dentes. Numa fase inicial, um dos sintomas mais comuns passa pelo sangramento durante a escovagem dos dentes. O problema é que esta inflamação, à medida que vai progredindo, pode afetar a saúde do osso e uma vez que isto acontece, o doente pode assistir à queda de dentes.

HN- As causas passam unicamente pela incorreta higienização ou há fatores genéticos que pode influenciar o aparecimento da doença?
GV- A principal causa é bacteriana. É claro que a componente genética também está presente, mas é apenas o switch que faz com que a pessoa desenvolva doença peridontal. É por isso que insistimos tanto na boa higienização em casa e com a ajuda do médico dentista.

HN- Quais os mitos associados à saúde oral e que considera essencial que sejam desmistificados?
GV- O maior mito é que os dentes caem e abanam com a idade. Hoje em dia sabemos que isso não é verdade. Quando isto acontece é devido à doença peridontal.
Outro mito é que a gengiva esta cem por cento colada aos dentes. Isso também não é verdade. Existe um sulco de dois ou três milimetros que tem de ser escovado também. Portanto, a escova tem de ser direcionada contra a gengiva para poder chegar a esse sulco que é muita vezes se acumula a maior parte da placa bacteriana.

HN- Como podemos prevenir este tipo de doença? Quais são as melhores práticas de higiene bucal para evitar o seu aparecimento?
GV- Em primeiro lugar, é preciso realizar uma boa higiene oral com recurso à escova, escovilhões e ao fio dentário. Este último é muito importante e é algo nem todas as pessoas fazem.
Por outro lado, é aconselhada a consulta de seis em seis meses ao médico dentista.

HN- Quais são os tratamentos mais comuns para a doença peridontal?
GV- Numa fase inicial, é feita uma destartarização e polimento dentário. Numa situação mais avançada, é feita a instrumentação subgengival.

HN- Que conselhos gostaria de deixar para garantir uma boa saúde oral?
GV- É importante escovar os dentes duas a três vezes ao dia. Relativamente à força, costumo dar o exemplo aos meus pacientes para fazerem força sobre a unha do pulgar, quando esta fica branca é essa a força que têm de exercer para escovar os dentes. Isto porque em casa só se consegue remover a placa. Já o tártaro só é possível remover com apoio profissional. Portanto, não é preciso fazer muita força quando se escova os dentes. É também essa a razão pela qual aconselhamos escovas suaves que não magoem a gengiva a fim de não causar retrações. Em relação ao fio dentário, é recomendado uma vez por dia preferencialmente à noite.

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