Especialista alerta para saúde mental em Cabo Verde e pede medidas

25 de Junho 2024

O especialista que lidera o único Centro de Atendimento Psicológico, na Praia, Cabo Verde, pede às autoridades que deem acesso a cuidados de saúde mental no arquipélago, em linha com o ano instituído pelo Governo, e faz três propostas.

Em entrevista à Lusa, o psicólogo Jacob Vicente disse ser necessário melhorar o fornecimento de antidepressivos às farmácias, permitir que as consultas de psicologia no setor privado sejam cobertas pelo Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), à falta de resposta pública, e melhorar a comunicação por parte do Ministério da Saúde.

“Tem de se deixar de fazer tantos discursos e apresentar algumas políticas públicas. Temos o Ano da Saúde Mental, mas o Governo não apresentou os pilares que o sustentam”, referiu o especialista que, em novembro de 2022, abriu um espaço privado, o Centro de Atendimento Psicológico, na altura inaugurado com a presença de representantes do Ministério da Saúde e da Câmara da Praia.

Olhando para o panorama geral, nas ilhas, Jacob Vicente queixa-se de, só ocasionalmente, ter sido feita “alguma ginástica, ou outra iniciativa” no âmbito do ano de Saúde Mental 2024.

“É preciso dar acesso a cuidados de saúde mental”, sublinhou.

“Existe bastante dificuldade no acesso aos medicamentos nesta área em Cabo Verde”, descreveu, relatando a experiência própria.

Segundo explicou, o centro que dirige tem prestado consultas e trabalhando principalmente em psicoterapias.

“Nós não temos uma farmácia, mas, no desespero, as pessoas ligam e perguntam pelos medicamentos. É uma situação que deve ser resolvida e o Ministério da Saúde tem de dizer o que se passa, porque temos pessoas descompensadas que não conseguem fazer nada”, referiu.

Por outro lado, “o Ministério da Saúde comunica muito pouco” e “de forma errada”, acrescentou.

“A situação é extremamente preocupante. O Governo tem de dizer como é que os cabo-verdianos podem ter acesso a cuidados de saúde mental se os centros [de saúde] não têm psicólogos com capacidade para dar respostas e a Segurança Social não permite que os cabo-verdianos procurem apoios em clínicas privadas”, assistência aos beneficiários que é dada noutras especialidades, apontou.

“Já falámos com as autoridades e pensamos que é necessário fazer uma campanha nacional”, que passe pela escola, sobretudo, para aumentar a autoestima da população mais jovem.

Jacob Vicente lançou alertas específicos relativos a alguns grupos populacionais. O psicólogo disse ter a perceção de haver cada vez mais crianças e adolescentes, nas escolas, a fazerem automutilação, falou de um “aumento significativo” de problemas de saúde mental nos relacionamentos e ainda de muitos trabalhadores afetados por esgotamentos.

O arquipélago conta com dois psiquiatras na ilha de Santiago, um outro em São Vicente, duas médicas em formação e alguns especialistas cubanos a prestar apoio na área.

No que respeita a psicólogos, há mais de 300, mas “grande parte está no desemprego”, disse.

O serviço de psicologia é prestado no hospital central na capital e nalguns centros de saúde, com um rácio de um a dois psicólogos para atender 15 a 20 mil pessoas.

No centro de atendimento de que Jacob Vicente é diretor, há seis profissionais residentes e sete que prestam serviços a um número que varia entre 150 a 300 pessoas por semana.

O centro juntou-se a parceiros para inaugurar um novo consultório em Achada Grande Frente, também na capital, que já recebeu cerca de 3.000 pessoas em três meses.

“As pessoas querem ter atendimento, mas há muitas desistências, porque não têm dinheiro para pagar consultas, outros nem sequer para pagar o autocarro”, relatou.

A Lusa contactou o Ministério da Saúde para obter esclarecimentos, mas não obteve disponibilidade para falar sobre o assunto.

João Spencer, presidente do conselho de administração da farmacêutica Emprofac, disse desconhecer qualquer rotura de antidepressivos.

Segundo disse, nesta empresa, mesmo que haja “falhas, de determinadas marcas, muitas vezes pontuais”, o armazém tem mais de cinco mil medicamentos, pelo que, “pode faltar uma determinada marca, mas provavelmente [existe] algum substituto”.

NR/HN/Lusa

 

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