White Paper: ferramenta de trabalho para decisores políticos e todos os setores ligados à saúde

9 de Julho 2024

A inclusão nas políticas de saúde de setores tradicionalmente menos envolvidos, como a educação, a administração pública, a justiça, o ambiente, o trabalho, a habitação, os transportes e a segurança social, e o aumento da participação dos cidadãos em todos os níveis do sistema de saúde são duas das recomendações do White Paper que a Escola Nacional de Saúde Pública apresenta hoje.

A escassez de recursos humanos tem criado constrangimentos no funcionamento de vários serviços de saúde, nomeadamente na atribuição de médico de família e nas urgências hospitalares, com impacto no acesso dos cidadãos a cuidados de saúde de qualidade e em tempo útil. Esta foi, por isso, uma das áreas consideradas prioritárias pela Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa (ENSP NOVA) e pelo grupo de mais de 80 organizações e peritos que elaboraram o White Paper que será hoje apresentado e que foi elaborado no âmbito da iniciativa ‘Liderar o caminho para um Futuro Saudável – Inovação ao serviço da Saúde Pública’.

“Aumentar a flexibilidade do mercado de trabalho do setor da saúde (por exemplo, contratos, horas de trabalho, horários), tendo em conta as necessidades e as expectativas dos empregadores e dos colaboradores, combinando, ao mesmo tempo, a regulação e a monitorização” e “assegurar regimes de remuneração justos e adequados, incluindo vários tipos de incentivos, um desenvolvimento profissional contínuo e adaptado aos trabalhadores do setor da saúde e a criação de condições para um equilíbrio adequado entre a vida profissional e a vida familiar, incluindo o alargamento dos serviços tradicionais de saúde no trabalho à saúde mental, ao bem-estar e ao desenvolvimento sócio-comportamental” são duas das recomendações na área dos recursos humanos. No total, o documento sintetiza dez recomendações que abrangem diferentes áreas.

“O White Paper teve como ponto de partida quatro grandes desafios consensualizados entre os peritos: alterações climáticas, envelhecimento populacional, capacidade de resistência dos sistemas de saúde às ameaças e emergências de saúde pública e o contexto de um crescimento económico lento e de inflação. Foi com base nestes quatro desafios que identificámos as políticas e sistemas saudáveis, comunidades saudáveis, força de trabalho saudável e saúde sustentável como as quatro grandes áreas de intervenção prioritária para as quais fazemos recomendações concretas e identificamos medidas facilitadoras e boas práticas que vão permitir alcançar os resultados”, explica a diretora da ENSP NOVA, Sónia Dias.

Em termos de sustentabilidade, por exemplo, defende-se a importância de uma gestão sustentável dos recursos, o que passa pela modernização das instalações de saúde e cuidados com iluminação e ventilação energeticamente eficientes, a transição para fontes de energia renováveis, a implementação de tecnologias e práticas de poupança de água e reciclagem de águas residuais, reutilização de equipamentos e redução de itens descartáveis e redução do desperdício de alimentos.

Sabendo também que a pegada ambiental dos sistemas de saúde é elevada, os peritos defendem medidas que visam a sua redução, através “da promoção da utilização de transportes sustentáveis, do desenvolvimento da telemedicina e do investimento em projetos de compensação de carbono”. Uma sustentabilidade ambiental que passa inevitavelmente pela reciclagem de resíduos gerados pelas instalações de saúde e a aplicação dos princípios da economia circular. Em todas as áreas, as tecnologias emergentes e a transição digital são consideradas como fundamentais a uma melhor gestão e a uma maior eficiência do sistema de saúde.

O White Paper foi criado no âmbito da Plataforma “Leading the Way to a Healthy Future”. Esta plataforma de cooperação pioneira foi criada pela ENSP NOVA e agrega mais de 80 parceiros de vários setores e áreas de atividade, que têm como prioridade promover um modelo de Saúde Pública 5.0, que dê resposta aos principais desafios dos sistemas de saúde e da sociedade – como as emergências de saúde, as alterações climáticas, os recursos humanos ou o envelhecimento da população.

A plataforma quer ser uma parceira ativa na construção de um futuro sustentável, promovendo abordagens ágeis, colaborativas e apoiadas na tecnologia, que garantam o bem-estar das populações. Pretende-se também criar um ambiente propício à inovação para transformar os sistemas de saúde, com impacto social, mas também na gestão organizacional, participação, modelos de negócio, tecnológico, digital, inteligência artificial, análise de dados, entre outros.

A diretora da ENSP NOVA realça que “este trabalho colaborativo inédito é um exemplo de excelência de como a abertura da academia à sociedade permite encontrar respostas para os problemas concretos do país e das pessoas, ficando agora o White Paper disponível enquanto ferramenta de trabalho para os decisores políticos e para todos os setores que participam de forma direta ou indireta na saúde”.

Além das medidas já referidas, destaca-se, ainda, a importância do desenvolvimento de uma política de promoção da saúde e de literacia em saúde ativa, eficaz e participada, que promova a capacitação das comunidades e dos indivíduos, bem como a inclusão nas políticas de saúde de setores tradicionalmente menos envolvidos, como a educação, a administração pública, a justiça, o ambiente, o trabalho, a habitação, os transportes e a segurança social. O aumento da participação dos cidadãos em todos os níveis do sistema de saúde, a implementação de um financiamento e incentivos ligados aos resultados em saúde, que incluam os resultados e a experiência dos doentes, a promoção de uma maior translação do conhecimento científico e tecnológico para o dia-a-dia das organizações e de uma “one health” são outras das recomendações do White Paper.

PR/HN

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