Covid-19: Wuhan e confinamentos são tabu na China cinco anos depois

30 de Dezembro 2024

Volvidos cinco anos desde que os primeiros casos de covid-19 foram diagnosticados no centro da China, referências à origem da pandemia, medidas de controlo ou dados sobre mortes e casos são tabus no país asiático.

As medidas restritivas de confinamento impostas em Wuhan, onde foram detetados os primeiros casos do « coronavírus, no final de 2019, serviram como guia para a política ‘zero covid’, que ao longo de três anos ditou a testagem em massa de centenas de milhões de pessoas e bloqueios altamente restritivos de cidades inteiras, marcados pela escassez de alimentos, violência ou isolamento de casos positivos em condições degradantes.

No dia a dia na China, há objetos que remetem para os tempos da pandemia: contentores abandonados em esquinas de Pequim, onde outrora milhares de pessoas acorriam diariamente para fazer o teste PCR obrigatório ou frascos de gel desinfetante à entrada dos estabelecimentos.

“Foi traumático”, observou à Lusa uma sul-coreana radicada em Pequim. “Quando sabes que a qualquer momento podes ser trancada em casa por tempo indeterminado ou arrastada para um local desconhecido perdes qualquer sensação de segurança”, descreveu.

A sucessão de tragédias e casos de abuso da autoridade acabaram por resultar em protestos que se alastraram por várias cidades chinesas no final de 2022, após um incêndio mortal, num prédio na cidade de Urumqi, no noroeste da China.

Imagens difundidas nas redes sociais mostraram que o camião dos bombeiros não conseguiu entrar no bairro, já que o portão de acesso estava trancado, e que os moradores também não conseguiram escapar do prédio. A porta estava bloqueada devido às medidas de prevenção epidémica.

Pequim optou então pelo fim abrupto das medidas restritivas, sem estratégia de mitigação, deixando famílias a lutar pela sobrevivência dos mais idosos, à medida que uma vaga de infeções inundou os hospitais e crematórios do país.

O epidemiologista Ben Cowling, da Universidade de Hong Kong, estima que cerca de 90% das pessoas na China ficaram infetadas com o coronavírus nas semanas após o levantamento das restrições.

“Para quem recebeu duas ou três doses da vacina, as infeções foram, no geral, muito ligeiras. Mas para pessoas não vacinadas, especialmente alguns idosos na China, as infeções foram um pouco mais graves”, afirmou Cowling à agência Lusa.

“Os meus colegas e eu calculamos cerca de 1,5 milhões de mortes em todo o país. Outras estimativas são ligeiramente inferiores, outras ligeiramente superiores”, descreveu.

Cinco anos depois, as referências às origens da covid-19 e à política ‘zero covid’ desapareceram da imprensa ou redes sociais do país.

O Partido Comunista Chinês (PCC), que inicialmente usou a estratégia ‘zero covid’ como fonte de legitimidade, manteve-se em silêncio sobre as consequências do surto. Os números oficiais da mortalidade são desconhecidos.

Após o levantamento das restrições, o PCC defendeu que a forma como lidou com a pandemia criou um “milagre na História da humanidade” e que os seus esforços levaram a China a uma “vitória decisiva” sobre o vírus.

“O Partido apostou no facto de que, se apenas enfatizar as evidências positivas, de alguma forma, após vários anos, as pessoas esquecerão o que se passou”, escreveu Willy Lam, analista da política chinesa.

Muitas pessoas com infeção por covid-19 continuam também a ser tratadas nos hospitais, segundo Cowling, que estimou que ainda há mais pessoas a precisar de ser hospitalizadas com infeções por covid-19 do que com gripe.

Os efeitos da política persistem sobretudo nos dados económicos, incluindo níveis recorde de desemprego jovem, débil consumo interno e uma prolongada crise no setor imobiliário, que geraram riscos deflacionários na segunda maior economia mundial. Isto reflete a perda de confiança entre investidores e as famílias, segundo analistas.

A empresária chinesa Chen Tong, que “nunca quis saber de política”, até o governo fechar os seus negócios e bloquear com chapas metálicas o prédio onde vive, decidiu emigrar para a Austrália.

“Os excessos, o controlo absoluto que o governo assumiu sobre a minha vida fizeram-me compreender: a política é importante”, explicou Chen, natural da província de Sichuan e dona de várias lojas de confeção de vestidos por medida, à Lusa.

“A confiança perdeu-se”, disse.

NR/HN/Lusa

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

ULS de Coimbra desativa planos de emergência após redução do caudal do Mondego

A Unidade Local de Saúde de Coimbra anunciou hoje a desativação do Plano de Emergência Externo e do Plano de Emergência Interno, que estiveram no nível 2 durante o período de calamidade pública para garantir resposta à cheia do Mondego, num agradecimento aos profissionais que, mesmo com as suas vidas afetadas, mantiveram os serviços operacionais

Raimundo desafia Governo a optar entre “guerras” e reconstrução

O secretário-geral do PCP desafiou hoje o Governo a escolher entre financiar conflitos externos ou canalizar verbas para a “guerra da reconstrução” do país, após a passagem das tempestades que devastaram várias regiões. A declaração foi feita durante uma visita ao centro de recolha de bens instalado no Estaleiro Municipal de Ourém, um dos concelhos mais fustigados pelo mau tempo

Tempestades: Campanha nacional recolhe donativos para vítimas de cheias e inundações

A Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares e a associação Entreajuda ativaram uma rede solidária para recolher fundos e bens essenciais destinados às populações flageladas pelas recentes tempestades. A distribuição da ajuda arranca na próxima semana, priorizando os concelhos que estiveram em situação de calamidade, numa operação articulada com autarquias e instituições locais

Pais de crianças com Asperger sem respostas: “Subsídios não chegam para nada”

A Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger (APSA) alertou hoje para a necessidade de um acompanhamento frequente e integrado na saúde e educação, sob pena de as pessoas com esta perturbação do espectro do autismo ficarem dependentes para toda a vida, sem conseguir gerir dinheiro, emprego ou a própria saúde

Hospital da Horta admite dificuldade em pagar diárias a doentes deslocados

A presidente indigitada do Hospital da Horta, Maria Cândido, alertou hoje para o agravamento dos custos com consumíveis e tratamentos, que poderá não ser totalmente colmatado pelo reforço orçamental, reconhecendo “dificuldades para pagar as diárias” dos doentes deslocados

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights