Descobertos mecanismos moleculares para compreender a pré-eclâmpsia que complica a gravidez

8 de Janeiro 2025

Uma equipa de cientistas descobriu mecanismos moleculares determinantes para compreender as alterações do útero que causam a pré-eclâmpsia, uma complicação grave que afeta 8% das gravidezes e causa mortalidade e morbilidade das mães e dos recém-nascidos.

A investigação da Fundação Carlos Simón, do Instituto de Investigação em Saúde Incliva e da Universidade de Valência (UV), liderada por Tamara Garrido-Gómez, e publicada na Nature Medicine, centra-se na decidualização do endométrio, um processo crucial para preparar o útero materno para a implantação do embrião e o desenvolvimento de uma gravidez saudável.

A Incliva realçou, em comunicado divulgado na terça-feira, que o trabalho representa um marco na compreensão desta doença, que até ao momento só pode ser tratada por parto urgente ou cesariana, levando a partos prematuros que colocam em risco a saúde da mãe e do feto.

A decidualização é um processo crucial que prepara o revestimento do útero, conhecido como endométrio, para a implantação do embrião e o desenvolvimento de uma gravidez saudável.

Nas mulheres com pré-eclâmpsia, este processo não é realizado corretamente, o que faz com que a gravidez se complique com graves consequências para a mãe e para o feto, bem como, a longo prazo, para a mulher que a sofreu.

Através de tecnologias avançadas, como a análise digital de tecidos, a sequenciação unicelular e a biologia espacial, a equipa de investigação multidisciplinar conseguiu caracterizar detalhadamente a resistência à decidualização no útero de pacientes que sofreram pré-eclâmpsia grave.

Esta alteração, conhecida como “resistência à decidualização”, impede a preparação ideal do endométrio para a implantação do embrião e o desenvolvimento da placenta. Poderá também ser um fator chave no desenvolvimento da pré-eclâmpsia.

O estudo revelou que o endométrio em mulheres com pré-eclâmpsia apresenta uma morfologia glandular anormal.

Segundo a investigadora pré-doutoranda e primeira autora do estudo, Irene Muñoz, “a análise de células individuais mostrou que as células deste endométrio afetado tendem a proliferar em vez de se diferenciarem e especializarem como deveriam”.

Foi também observada uma comunicação defeituosa entre as células estromais e epiteliais, o que poderá contribuir para o desenvolvimento da doença.

“Criámos um mapa interativo do endométrio, semelhante a um Google Maps, onde podemos ver como as células endometriais interagem e o que está a correr mal nas mulheres com pré-eclâmpsia”, explicou a investigadora principal da Fundação Carlos Simón e Incliva, Tamara Garrido.

Os resultados deste estudo poderão ter um impacto significativo não só no tratamento da pré-eclâmpsia, mas também noutras condições ginecológicas e reprodutivas, como a endometriose, onde a decidualização também está prejudicada.

NR/lusa/HN

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