Especialistas defendem programa específico para combater suicídio nos Açores

27 de Fevereiro 2025

O diretor do serviço de Psiquiatria do Hospital Divino Espírito Santo (HDES) e o representante da Ordem dos Psicólogos nos Açores defenderam hoje a criação de um programa específico para combater o suicídio na região.

“Nós temos um programa regional de saúde mental. Já tivemos outros anteriores. Já tivemos a nível nacional um programa de prevenção do suicídio. Haver um programa desta natureza [dedicado ao suicídio] é algo que pode ajudar [o combate], obviamente”, afirmou o diretor da Psiquiatria do hospital de Ponta Delgada.

O médico falava na comissão de Assuntos Sociais da Assembleia Regional a propósito de um projeto de resolução do PAN que recomenda a criação de uma Estratégia Regional de Prevenção e Combate ao Suicídio, na qual também foi ouvido o presidente do Conselho Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos, Marco Santos.

O diretor do serviço de Psiquiatria do maior hospital dos Açores considerou “preocupante” o número de suicídios na região, mas avisou que aquele flagelo “não pode ser visto apenas como um problema de saúde mental”.

“Os números do Instituto Nacional de Estatística [INE] mostram que, de facto, os Açores têm aumentado a prevalência de suicídio e esse suicídio ocorre, nomeadamente, em jovens e até com alguma frequência em menores de 18 anos. Isso é preocupante”, realçou.

De acordo com números do INE referentes a 2022, consultados pela agência Lusa, os Açores registaram 12,5 suicídios por 100 mil habitantes, um valor acima da média nacional (9,7).

João Vidal avançou que o HDES vai contar, a partir de março, com nove psiquiatras, mas salientou que aquele hospital deveria ter 14 profissionais para atender à população das ilhas do grupo oriental do arquipélago, de acordo com os valores sugeridos pela Organização Mundial de Saúde

“Catorze é diferente de nove. Nós temos psiquiatras que são suficientes para o internamento. Temos psiquiatras que são suficientes para a urgência e que são suficientes para o hospital de dia. Temos um número insuficiente para consulta externa ou para psiquiatria comunitária”, explicou.

O diretor da Psiquiatria do HDES defendeu, contudo, que aquele “serviço tem vindo a ter um crescimento sustentado nos últimos anos” e sublinhou a importância da psiquiatria comunitária.

“A psiquiatria comunitária é essencial. Cada vez mais os serviços hospitalares têm de pensar em evoluir para a comunidade”, afirmou.

Já o representante da Ordem dos Psicólogos nos Açores destacou a necessidade de implementar medidas “transversais” para “reforçar o bem-estar e a saúde psicológica da população açoriana”.

“Urge, de facto, adotar medidas transversais aos vários setores, desde a educação, ao comunitário, à saúde e adotar uma estratégia para que, efetivamente, essas políticas sejam adotadas na região”, afirmou, a propósito da problemática do suicídio.

Marco Santos defendeu a necessidade de olhar para os contextos sociais e para os fatores de risco do suicídio, como o ‘burnout’ ou a depressão, considerando que o Programa Regional de Saúde Mental assenta, sobretudo, “numa perspetiva remediativa”.

“Temos de começar a ver muito mais numa perspetiva preventiva”, assinalou o psicólogo.

O parlamento dos Açores, com sede na Horta, na ilha do Faial, é composto por 57 deputados, 23 dos quais da bancada do PSD, outros 23 do PS, cinco do Chega, dois do CDS-PP, um do IL, um do PAN, um do BE e um do PPM.

lusa/HN

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