USAID não deu prioridade a países com maior incidência de malária

28 de Fevereiro 2025

A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) não deu prioridade aos países com maior incidência de malária, contrariando a estratégia de aumentar o financiamento em 2021-2026, e no caso de Angola houve até uma diminuição da dotação.

A informação consta de uma auditoria da agência governamental USAID à Iniciativa do Presidente dos Estados Unidos contra a Malária (PMI) que visa combater a malária globalmente, em especial nos 14 países com maior incidência entre os quais se encontram Angola e Moçambique.

Desde o início da PMI, em 2005, a USAID investiu mais de nove mil milhões de dólares (8,6 milhões de euros) para ajudar os 27 países parceiros a combater a doença, tendo sido atribuídos pelo Congresso norte-americano, em 2024, 795 milhões de dólares (763 milhões de euros) para o controlo e eliminação da malária, tendo em conta a nova estratégia definida para 2021-2026 para dar prioridade aos 14 países com maior incidência de malária em África.

O objetivo da auditoria, consultada pela Lusa, foi determinar em que medida a USAID implementou a estratégia e determinar se o processo de atribuição de recursos da agência resultou em alterações no financiamento para os 14 países – entre os quais os dois lusófonos – com elevada incidência da doença.

Na auditoria concluiu-se que a atribuição de financiamento da USAID para os 14 países com elevada incidência em África se manteve estável, ao contrário do que se pretendia no âmbito da estratégia que visava concentrar os esforços nestes países em vez de apoiar da mesma forma os 27 países parceiros.

Estes países foram responsáveis por cerca de 81% do total de mortes e casos de paludismo que ocorreram nos 27 países incluídos no PMI, mas receberam apenas cerca de 50 por cento dos fundos da USAID para a malária no ano fiscal de 2023 – a mesma percentagem que receberam nos anos de 2020 e 2021, ao abrigo da anterior Estratégia do PMI, que não previa dar prioridade aos países com elevada incidência de malária (taxa de infeção superior a 20 por cento da população em risco).

Na auditoria revela-se que no exercício de 2023, a USAID recebeu um aumento orçamental de 20 milhões de dólares em relação ao ano anterior para atividades de controlo e eliminação da malária, mas nenhum dos 14 países com elevada incidência recebeu um aumento anual do financiamento. No caso de Angola, houve até uma diminuição da dotação orçamental em três milhões de dólares (2,8 milhões de euros).

“Isto ocorreu apesar de, pelo menos quatro dos 14 países com elevada incidência terem declarado a necessidade de fundos adicionais do PMI para apoiar ou expandir as suas atividades contra a malária”, destaca-se no documento.

Em vez disso, a agência utilizou os fundos para outras prioridades do PMI, como a expansão para outros países, segundo os auditores.

A malária, a doença transmitida por mosquitos que mais mortes causa no mundo, mata mais de meio milhão de pessoas por ano.

Em 2023, quatro países africanos – Nigéria (27 por cento), República Democrática do Congo (12 por cento), Uganda (5 por cento) e Moçambique (4 por cento) – representavam quase metade de todos os casos a nível mundial, segundo a Organização Mundial da Saúde.

África registou 95% de todos os casos de malária e 96% das mortes em 2022, segundo a USAID, maior doador individual do mundo, distribuindo assistência que vai desde a saúde das mulheres em zonas de conflito até ao acesso a água limpa, tratamentos para o HIV/Sida e malária ou segurança energética.

Nos primeiros dias do seu segundo mandato, o Presidente norte-americano, Donald Trump, suspendeu toda a ajuda internacional durante 90 dias, com exceção dos programas humanitários alimentares e da ajuda militar a Israel e ao Egito.

NR/HN/Lusa

 

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Cuidados continuados integrados: o desafio da fragmentação em Portugal

A prestação de cuidados continuados em Portugal caracteriza-se pela fragmentação entre serviços de saúde e sociais, criando lacunas na assistência a idosos e pessoas com dependência. A falta de coordenação entre os diferentes níveis de cuidados resulta em transições inadequadas e sobrecarga para as famílias

O Paradoxo Português: Mais Médicos Não Significa Melhor Saúde

Portugal supera a média da OCDE em número de médicos, uma vantagem que esconde uma fragilidade crítica. A escassez persistente de enfermeiros compromete a eficácia dos cuidados, sobrecarrega o sistema e expõe um desequilíbrio perigoso na equipa de saúde nacional

Prescrição segura em Portugal: antibióticos e opioides ainda acima das melhores práticas internacionais

Portugal mantém níveis de prescrição de antibióticos nos cuidados primários superiores à média da OCDE, um padrão partilhado com outros países do sul da Europa. Este uso excessivo, aliado a uma tendência crescente para opioides, alerta para riscos de resistência antimicrobiana e dependência, exigindo uma estratégia nacional concertada para mudar práticas clínicas e culturais profundamente enraizadas

Prevenção em Saúde: A Cura que Portugal Ignora

Apenas 3% da despesa em saúde em Portugal é canalizada para a prevenção. Este investimento residual, estagnado há uma década, condena o sistema nacional a um ciclo vicioso de tratamentos caros e reativos. Enquanto isso, países como a Finlândia e o Canadá demonstram que priorizar a prevenção é a estratégia mais inteligente e económica para travar o tsunami das doenças crónicas

Inovação em Saúde Portuguesa: O Labirinto Burocrático que Prende o Futuro

O relatório “Health at a Glance 2025” da OCDE expõe uma contradição gritante em Portugal: apesar de uma investigação robusta e profissionais qualificados, a inovação em saúde enfrenta anos de entraves burocráticos, deixando os doentes à espera de terapias já disponíveis noutros países e travando a modernização do SNS

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights