USF-AN: Distribuição de produtos não médicos sobrecarrega centros de saúde

13 de Março 2025

A distribuição de fraldas e pensos menstruais nos centros de saúde, enquanto vacinas e infeções ligeiras são transferidas para farmácias, levanta questões sobre a eficiência e prioridades do SNS. USF-AN alerta para sobrecarga e desvio de recursos essenciais.

A recente decisão de distribuir produtos como fraldas, cuecas e pensos de incontinência, bem como dispositivos menstruais, nos centros de saúde, nomeadamente nas Unidades de Saúde Familiar (USF), tem gerado perplexidade entre profissionais de saúde e utentes. Paralelamente, a transferência de competências como a vacinação e o tratamento de “infeções ligeiras” para as farmácias coloca em causa a eficácia e a organização do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

A medida, que visa disponibilizar gratuitamente estes produtos à população, foi implementada sem que os centros de saúde estivessem preparados para a logística pesada que implica. A falta de espaço adequado, equipamentos como leitores de códigos de barras e pessoal especializado para gerir a distribuição tem perturbado significativamente a atividade das USF. Estas unidades, que já enfrentam limitações em recursos humanos e infraestruturas, veem-se agora sobrecarregadas com tarefas que não se enquadram nas suas funções essenciais.

Por outro lado, a transferência de serviços como a vacinação para as farmácias tem levantado dúvidas sobre a capacidade destas para assumirem tais responsabilidades. Dados indicam que as metas de vacinação contra a gripe só foram atingidas nos grupos populacionais vacinados exclusivamente nos centros de saúde, o que demonstra a eficácia deste modelo. A dispersão da logística pelas farmácias resultou em resultados aquém do esperado, colocando em risco a saúde pública.

A USF-AN (Unidades de Saúde Familiar – Associação Nacional) tem sido veemente na crítica a estas medidas, defendendo que a principal missão das USF é a prestação de cuidados de saúde primários, prevenção de doenças e acompanhamento clínico. A distribuição de produtos não farmacológicos, como fraldas e pensos menstruais, deve ser assegurada por outras instituições ou mecanismos de apoio social, e não pelos centros de saúde.

A associação alerta ainda para o facto de a maioria das USF não dispor de assistentes operacionais, sendo este papel desempenhado por empresas de outsourcing, o que agrava as dificuldades logísticas. A falta de armazéns adequados e de pessoal para gerir a distribuição destes produtos compromete a qualidade do serviço assistencial prestado aos utentes.

A Direção da USF-AN reitera que a prioridade das USF deve continuar a ser a prestação de consultas, promoção da saúde, prevenção de doenças e gestão de patologias crónicas. A atribuição de tarefas como a distribuição de produtos não médicos desvia recursos essenciais e coloca em causa o funcionamento adequado destas unidades.

Esta reestruturação do SNS, que parece desviar as USF das suas funções primárias e transferir responsabilidades para as farmácias, levanta sérias questões sobre o futuro do sistema de saúde em Portugal. A falta de clareza sobre os objetivos e a ausência de um plano robusto para implementar estas mudanças têm gerado preocupação entre profissionais e utentes, que exigem esclarecimentos urgentes.

PR/HN/MM

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Portugal, no documento “O Estado da Saúde Cardiovascular na União Europeia”: Baixa Mortalidade, mas Fatores de Risco Persistem

O relatório da OCDE “O Estado da Saúde Cardiovascular na UE”, tornado público hoje, analisa os padrões da doença na Europa. Portugal surge com uma mortalidade por doenças circulatórias das mais baixas do continente, um sucesso que se manteve mesmo durante a pandemia. No entanto, o país ainda enfrenta desafios significativos, como a gestão da diabetes, o consumo de álcool e a mortalidade prematura, especialmente entre os homens

Doenças cardiovasculares custam 282 mil milhões de euros à União Europeia

A União Europeia enfrenta um desafio significativo com as doenças cardiovasculares (DCV), que continuam a ser a principal causa de morte e incapacidade no território comunitário. Um relatório recentemente divulgado, antecedendo o lançamento do Plano Corações Seguros, revela que estas doenças são responsáveis por um terço de todas as mortes anuais na UE e afetam mais de 60 milhões de pessoas.

Universidade Católica Portuguesa lança curso pioneiro em Medicina do Sono Pediátrico

A Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa (FM-UCP) vai iniciar a primeira edição de um curso avançado dedicado ao estudo e prática clínica do sono na infância, uma formação pioneira em Portugal. O curso, que arranca a 16 de janeiro, será ministrado em formato b-learning e em inglês, com um carácter internacional.

Ordem dos Nutricionistas cria Fundo de Apoio à Formação para profissionais desempregados

A Ordem dos Nutricionistas lançou, pela primeira vez, um Fundo de Apoio à Formação destinado a apoiar os profissionais de nutrição que se encontrem em situação de desemprego. Esta iniciativa surge no âmbito do Dia do Nutricionista, celebrado a 14 de dezembro, e tem como objetivo possibilitar a aquisição de ferramentas que promovam uma prática profissional atualizada e baseada na evidência científica.

Doação de gâmetas: um gesto cada vez mais essencial para ajudar a construir famílias

A doação de gâmetas — óvulos e espermatozoides — assume hoje um papel crucial na concretização do sonho da parentalidade para centenas de pessoas em Portugal. As mudanças sociais, o adiamento da maternidade e paternidade e o aumento dos casos de infertilidade tornam este gesto altruísta cada vez mais necessário.

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights