Mães exigem investigação após morte de bebés prematuros no principal hospital de Cabo Verde

21 de Março 2025

Mães que perderam bebés prematuros no principal hospital de Cabo Verde, em fevereiro, queixaram-se à Lusa de falta de cuidados, exigindo uma investigação, uma semana depois de o Governo ter admitido o registo de cinco mortes.

“Não consigo descrever esta dor. Ninguém do hospital me deu qualquer explicação. Quando o meu bebé morreu, nem uma palavra de conforto, nem um abraço, nada”, disse à Lusa Yara Ramos, 26 anos, que perdeu o filho no Hospital Universitário Agostinho Neto (HUAN), na cidade da Praia.

Yara deu à luz um menino, a 05 de fevereiro, por cesariana, sem outras complicações além do baixo peso.

O bebé foi colocado numa incubadora, mas, dez dias depois, ficou a saber pelo pessoal do hospital que todos os que ali estavam tinham contraído uma infeção.

“Desde fevereiro, começaram a morrer. Alguns médicos preocupam-se, mas a maioria só quer o ordenado”, declarou.

O filho de Yara morreu a 03 de março: “O meu mundo desabou. Já tinha comprado tudo: berço, cómoda, roupa. Agora vou dar a quem precisar”, disse à Lusa.

Yara disse acreditar que o filho foi um dos últimos “de um total de oito bebés” que morreram na unidade e exige uma investigação “urgente”.

Na sexta-feira, a ministra de Estado, Janine Lélis, confirmou no parlamento a morte de cinco recém-nascidos, em fevereiro, após um aumento da taxa de partos prematuros (entre 25 e 31 semanas) e bebés com baixo peso (870 a 1.870 gramas) – indicando que três morreram devido a infeções neonatais precoces, de origem materna, e, em dois casos, devido a cuidados prestados e complicações da prematuridade.

A ministra disse ser “essencial reforçar as estratégias de prevenção, sobretudo na assistência pré-natal, que faz muita diferença” para evitar tais situações.

O assunto foi levantado pelo Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), maior partido da oposição, que pediu esclarecimentos sobre um alegado surto de infeções neonatais no hospital.

“Não é a primeira vez que isto acontece e, se nada for feito, vai continuar. Eu não desejo que mais nenhuma mãe passe por isto”, afirmou Yara, apontando que mais quatro mulheres na mesma situação recusam-se a falar, porque acham que “já nada adianta”.

Larissa Borges, de 24 anos, também perdeu a filha a 05 de março e ainda não recebeu qualquer explicação: “Não sei o que aconteceu com a minha filha”, contou.

A bebé, nascida de parto normal, a 07 de fevereiro, “apenas tinha falta de peso”.

Larissa garantiu ter sido acompanhada por uma médica, desde janeiro, e que a ela – a mãe – apenas lhe foi diagnosticada perda de líquidos.

“Disseram que era normal e que devia beber mais água, mas a minha filha nasceu saudável”, apontou.

No final de fevereiro, reparou que os pés da bebé estavam roxos.

“Perguntei à médica, que ficou espantada, porque não sabia de nada”, relatou.

A situação agravou-se: os pés tornaram-se negros e a barriga inchou. Os pais insistiram por respostas e uma médica cubana confirmou uma infeção, sem explicar como foi contraída.

“Ela estava sempre ao cuidado deles, eu nem lhe podia pegar ao colo”, lamentou a mãe que já tentou contactar a Procuradoria de Justiça, mas ainda sem conseguir.

“Quero apresentar queixa e reunir-me com outras mães”, afirmou.

Larissa, que já tinha tudo preparado para receber a bebé em casa, disse que não consegue desfazer-se da roupa que lhe estava reservada.

“Não quero dar nada a ninguém. Fico sozinha em casa a pensar que teria a minha filha como companhia”, lamentou, pedindo “mais cuidado na incubadora”.

“Justiça tem de ser feita”, insistiu.

A mãe admitiu à Lusa que já tinha alguns receios, depois de um caso, em dezembro de 2024, em que o corpo de um bebé falecido na unidade foi dado como desaparecido.

Duas semanas depois, o hospital informou que foi sepultado sem o conhecimento da família, juntamente com tecidos humanos descartados.

Na altura, o Presidente da República, José Maria Neves, sugeriu uma auditoria mais ampla aos serviços de saúde.

A Lusa tentou obter esclarecimentos, ao longo de vários dias, junto do Governo, do Ministério da Saúde e do hospital, mas não obteve respostas.

lusa/HN

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Homem baleado na Cova da Moura morre no Amadora-Sintra

Um homem, de 34 anos, morreu hoje no hospital Amadora-Sintra, depois de ter dado entrada durante a madrugada com ferimentos de arma de fogo, juntamente com um jovem de 16 anos, após confrontos na Cova da Moura.

Estudo liga consumo de vídeos curtos a menor envolvimento escolar

Duas investigadoras da Universidade de Macau concluíram que vídeos de formato curto usados nas redes sociais e vistos em “scrolling” nos telemóveis impactam negativamente o desenvolvimento cognitivo das crianças, podendo causar ansiedade social e insegurança.

Sobrecarga e falta de pessoal desgastam enfermeiros noruegueses

Mais de 18 mil enfermeiros participaram no mais recente inquérito sobre o ambiente psicossocial de trabalho, revelando que a pressão aumentou no último ano, sobretudo nos lares e nos cuidados domiciliários municipais. Metade dos gestores admitiu ter sofrido cortes de pessoal

IA prevê recuperação de doentes após operação à anca

Um modelo de inteligência artificial desenvolvido por engenheiros alemães consegue antecipar, com base na análise da marcha, o grau de recuperação de doentes submetidos a uma artroplastia da anca. A ferramenta, testada em mais de uma centena de pacientes, permite agrupar padrões de movimento e adaptar a reabilitação. A investigação, do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT) e da Universidade de Frankfurt, foi publicada na Arthritis Research & Therapy

Diacereína reemerge como potencial modificador da artrite reumatoide

Uma revisão de estudos clínicos e pré-clínicos publicada na Acta Materia Medica reacende o interesse na diacereína, um derivado antraquinónico, para o tratamento da artrite reumatoide. O fármaco, conhecido pelas propriedades anti-inflamatórias e condroprotetoras, atua pela supressão da interleucina-1β, mediador central da inflamação sinovial e da degradação da cartilagem, diferenciando-se dos anti-inflamatórios não esteroides convencionais

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights