Competências sociais dos bebés resistem a condições traumáticas, conclui investigação global

25 de Abril 2025

Um estudo internacional envolvendo mais de 800 bebés em quatro países revela que, mesmo expostos a traumas, pobreza ou instabilidade familiar, os bebés mantêm competências sociais fundamentais, como seguir pistas sociais, ao nível de crianças em ambientes seguros.

Uma investigação internacional liderada pela Universidade de Uppsala, na Suécia, em colaboração com equipas do Uganda, Zimbabué e Butão, concluiu que bebés a viver em contextos de grande adversidade, como refugiados ou em famílias afetadas por guerra, pobreza e depressão parental, demonstram competências sociais comparáveis às de crianças criadas em ambientes seguros. O estudo, um dos maiores já realizados com bebés utilizando medições de movimentos oculares, envolveu mais de 800 crianças entre os 100 e 300 participantes por país1.

Recorrendo à tecnologia de eye tracking, os investigadores filmaram os olhos dos bebés e analisaram, através de algoritmos, a direção do olhar para determinar a capacidade de seguir pistas sociais — isto é, perceber para onde outra pessoa olha e partilhar atenção sobre o mesmo objeto ou evento. Esta habilidade, fundamental para o desenvolvimento social, revelou-se estável mesmo em bebés expostos a situações de insegurança alimentar, pobreza extrema, experiências traumáticas familiares e depressão parental1.

Para contextualizar o ambiente de cada criança, os pais foram entrevistados sobre traumas, bem-estar psicológico e recursos disponíveis para a parentalidade. As definições de trauma e pobreza foram adaptadas a cada país, com base em escalas internacionalmente validadas e indicadores locais. Os questionários eram aplicados por assistentes de investigação locais, capazes de adaptar as perguntas às realidades culturais e sociais de cada contexto1.

Os resultados surpreenderam os investigadores, que partiam da premissa de que a primeira infância seria especialmente vulnerável às condições adversas. Apesar das dificuldades, os bebés demonstraram resiliência, mantendo a capacidade de seguir pistas sociais, uma competência essencial ao desenvolvimento humano. O estudo sugere que, mesmo em ambientes marcados por insegurança e trauma, existem oportunidades para o desenvolvimento e aprendizagem das crianças, contrariando a ideia de que a adversidade condena irremediavelmente o percurso social dos mais novos1.

A investigação contou com a participação de especialistas em psicologia do desenvolvimento, estudos de paz e conflito e design de jogos, refletindo a natureza multidisciplinar do projeto. O estudo reforça a importância de compreender as capacidades inatas que se manifestam precocemente na vida e destaca a necessidade de criar oportunidades para todas as crianças, independentemente do contexto em que crescem.

Referência: Artikel: Gredebäck, G. et al.; (2025). Infant Gaze Following Is Stable Across Markedly Different Cultures and Resilient to Family Adversities Associated With War and Climate Change. Psychological Science, 0(0). DOI: 10.1177/0956797651331042

NR/HN/ALphagalileo

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