Francisco Araújo: os CSP são essenciais no combate ao risco cardiovascular

06/28/2025
Em entrevista ao Healthnews, Francisco Araújo, Presidente da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose (SPA), revela os objetivos e expectativas do I Congresso Online da SPA, uma iniciativa que contou com o apoio da Tecnifar, dirigida a médicos de Medicina Geral e Familiar, destacando a importância dos cuidados de saúde primários na prevenção e tratamento do risco cardiovascular.

HealthNews (HN) – Quais são os principais objetivos do 1.º Congresso de Risco Vascular e Dislipidemia em Cuidados de Saúde Primários?

Francisco Araújo (FA) – O principal objetivo deste congresso, que conta com o apoio da Tecnifar, é aproximar a Sociedade Portuguesa de Aterosclerose dos médicos de Medicina Geral e Familiar, reconhecendo que os cuidados de saúde primários são a porta de entrada do sistema de saúde em Portugal para a maioria da população. Estes profissionais acompanham os doentes ao longo de toda a vida, sendo fundamental que tenham oportunidade de apresentar os seus trabalhos, seja sob a forma de casos clínicos ou de estudos baseados na prática real. A partilha de experiências e conhecimento contribui para melhorar o controlo dos doentes, nomeadamente no que diz respeito ao risco vascular, promovendo assim melhores resultados em saúde.

HN – Que papel considera que os cuidados de saúde primários desempenham atualmente na gestão do risco cardiovascular em Portugal?

FA – Os cuidados de saúde primários são essenciais para garantir o acesso equitativo aos cuidados de saúde, sobretudo num contexto de crescentes desigualdades sociais e de fácil acesso a informação, muitas vezes sem critério, através da internet e redes sociais. O médico de família assume um papel central como elo de ligação entre o doente e o sistema de saúde, sendo o ponto de contacto fundamental para esclarecer dúvidas, garantir continuidade de cuidados e promover a literacia em saúde ao longo da vida dos utentes.

HN – Como avalia a adesão dos profissionais de Medicina Geral e Familiar a iniciativas como este congresso online?

FA – Existe uma grande expectativa relativamente à adesão dos profissionais a esta iniciativa, que é inédita no seu formato. Sendo a primeira edição, espera-se que traga uma dinâmica renovada à classe, promovendo o envolvimento e a partilha de experiências entre colegas de todo o país. Acredita-se que este formato inovador poderá motivar os profissionais a participarem ativamente, contribuindo para o sucesso do congresso e para a melhoria da prática clínica.

HN – Que critérios serão utilizados pela SPA para selecionar as 21 propostas a serem apresentadas em formato webinar?

FA – A seleção das propostas será feita por um júri composto por ex-presidentes da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose, profissionais de reconhecida experiência e moderação. O objetivo é garantir a inclusão de trabalhos provenientes de diferentes regiões do país e que abranjam diversas áreas, desde casos clínicos a pequenas revisões sistemáticas de séries realizadas. O critério fundamental será a qualidade dos trabalhos e a sua relevância para a prática clínica diária, privilegiando propostas que reflitam a realidade dos cuidados de saúde primários em Portugal.

HN – De que forma espera que este congresso contribua para a melhoria da prática clínica na prevenção e tratamento da doença cardiovascular?

FA – A discussão da realidade portuguesa, através da partilha de casos e experiências, permite identificar pontos fortes e áreas de melhoria na abordagem ao risco cardiovascular. O conhecimento gerado a partir da prática real pode conduzir a mudanças significativas na forma como os profissionais encaram a prevenção e o tratamento, promovendo a adoção de estratégias mais eficazes e adaptadas ao contexto nacional. Assim, espera-se que o congresso contribua para uma melhor concentração de esforços e para a definição de caminhos que conduzam a melhores resultados em saúde.

HN – Que desafios identifica na submissão e partilha de casos clínicos e projetos de investigação em formato digital?

FA – Atualmente, a maioria dos profissionais está familiarizada com o uso de plataformas digitais para apresentação de trabalhos. No entanto, a ausência de contacto presencial pode ser um desafio, pois limita a interação direta entre os participantes. Ainda assim, acredita-se que este obstáculo pode ser superado através da promoção de discussões interativas e enriquecedoras, que potenciem a troca de ideias e experiências, tornando o congresso mais dinâmico e proveitoso para todos os envolvidos.

HN – Considerando que cerca de 40% dos adultos seguidos em cuidados primários apresentam risco cardiovascular, que estratégias defende para melhorar este cenário?

FA – A estratégia central passa pelo trabalho em equipa, nomeadamente através de uma abordagem interdisciplinar. O reconhecimento precoce do risco é fundamental, sendo necessário utilizar as ferramentas disponíveis para avaliar o risco cardiovascular dos doentes. A partir dessa avaliação, podem ser implementadas estratégias que promovam mudanças nos estilos de vida, com vista à melhoria da qualidade de vida e à redução do risco de complicações futuras. Quando necessário, deve ser também considerada a intervenção medicamentosa, sempre integrada numa abordagem global e personalizada ao doente.

HN – Que impacto espera alcançar com a realização deste congresso ao longo de vários meses e em formato totalmente online?

FA – O formato prolongado e online do congresso permite repartir a apresentação dos trabalhos ao longo de vários meses, tornando o evento mais leve, apelativo e dinâmico. Esta abordagem facilita a participação dos profissionais, promovendo a continuidade da discussão e o aprofundamento dos temas. O objetivo é criar um espaço de partilha e aprendizagem contínua, que motive os participantes e contribua de forma significativa para a melhoria da prática clínica e para o combate ao risco cardiovascular em Portugal.

HealthNews

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