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A grave crise nas urgências obstétricas da Península de Setúbal dominou a entrevista da Ministra da Saúde à SIC esta quarta-feira. Perante o fecho prolongado de serviços no Barreiro (10 dias) e em Setúbal (até 15 de julho), com relatos de dois óbitos de recém-nascidos em contexto de transferências forçadas, Ana Paula Martins anunciou uma solução imediata: “A partir de setembro, o Hospital Garcia da Horta terá urgência obstétrica aberta todo o ano com uma equipa de seis especialistas recrutados do setor privado”. A ministra explicou que estes profissionais, que se desvincularam voluntariamente de uma instituição privada, integrarão os quadros do SNS através de vagas carenciadas – posições com remuneração superior à base. “Não se trata de uma equipa externa, mas de médicos que passam a ser nossos, juntando-se aos clínicos existentes e aos internos”, reforçou, reconhecendo que esta medida é uma resposta paliativa à fuga de nove especialistas do hospital nos últimos meses.
No capítulo da gestão do SNS, a saída do ex-diretor executivo Fernando Araújo foi abordada com tensão. A ministra sugeriu motivações políticas no processo: “Após bater a porta, tornou-se cabeça de lista do PS. Pedi um relatório de progresso, como faria com qualquer entidade recém-criada – e isso não é assédio”. Defendeu ainda o atual líder, Álvaro Almeida, destacando sua experiência na expansão do médico de família no Norte: “Seu estilo sereno não é fraqueza; convocar os hospitais para soluções conjuntas exige diálogo, não apenas ordens”.
A polémica dos helicópteros do INEM expôs falhas administrativas. Martins assumiu que o concurso internacional, herdado do governo anterior, foi “imperfeito”: “A empresa vencedora não tinha pilotos treinados em julho, e a burocracia do Estado atrasou a compra de ambulâncias em seis meses”. Sobre o recurso à Força Aérea, desfez equívocos: “Temos três helicópteros operacionais, não quatro. Os aviões de asa fixa já atuam em emergências não urgentes”. Garantiu a regularização total do serviço aéreo “dentro de um mês e meio”.
Sobre casos como o de uma grávida que perdeu o bebé após transferência para Cascais (devido ao fechamento do Barreiro), enfatizou: “Corrijo sistemas, não gero episódios”. Esta declaração sintetiza sua resposta às críticas sobre responsabilização política: “Assumo compromissos com falhas estruturais, não com eventos isolados. Sairia se perdesse a capacidade de coordenar políticas, não por tragédias pontuais”. Sobre os relatórios de óbitos em Setúbal, foi taxativa: “Se investigações comprovarem causalidade direta entre falhas do sistema e mortes, assumirei consequências. Até agora, as análises técnicas não o fizeram”.
Ao anunciar a atração de médicos do privado, Martins vislumbrou uma mudança estratégica: “O SNS precisa competir em atratividade. Estamos a demonstrar que é possível”. Questionada sobre metas para o mandato, listou prioridades:
- Reorganização das urgências com modelos diferenciados por nível de complexidade;
- Operacionalização do INEM (helicópteros, ambulâncias e carreiras valorizadas);
- Consolidação da Direção Executiva do SNS com estatuto revisado: “Não a extinguiremos; daremos tempo para amadurecer”.
Desafiada sobre sua permanência no cargo, respondeu com ambiguidade calculada: “Sairei apenas se me faltar força para coordenar políticas ou por motivos de saúde. Enquanto vir os profissionais do SNS a subir, subirei com eles”. A frase ecoou como um resumo involuntário de seu desafio: ascender numa estrutura que teima a desmoronar-se.
HN/MM



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