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Iona Heath, médica de família aposentada e ex-presidente do Royal College of General Practitioners (RCGP), revela um momento decisivo de 1991: perante 50 especialistas de saúde pública, o diretor-médico inglês Kenneth Calman declarou que “a medicina geral está idealmente posicionada para executar a agenda de saúde pública”. “Protestei veementemente”, recorda Heath, “mas apenas um ou dois me apoiaram”.
Três décadas depois, Heath argumenta que esta visão causou “danos enormes” aos cuidados primários. Em declarações à imprensa especializada, a ex-líder do RCGP alerta: a obsessão por monitorizar fatores de risco em assintomáticos desviou os clínicos do cuidado a doentes sintomáticos, causando “dano moral” aos profissionais e prejuízos à população.
Heath fundamenta a crítica em dados concretos: o Instituto Nacional de Excelência em Saúde do Reino Unido (NICE) recomenda 379 intervenções preventivas, mas apenas 3% têm evidência sólida de eficácia. Paralelamente, cita um estudo norueguês de 2022 que comprova que pacientes com o mesmo médico há mais de 15 anos têm redução de 25-30% na mortalidade.
“Se a continuidade de cuidados fosse um fármaco, estaríamos a colocá-lo na água potável”, ironiza Heath. Contudo, destaca que esta prática é “sabotada por determinantes comerciais”, privilegiando intervenções farmacológicas preventivas sem prazo definido.
A ex-presidente do RCGP recupera ainda um alerta histórico de Archie Cochrane e Walter Holland (1971): programas de rastreio exigem “evidência conclusiva de que alteram a história natural da doença” – padrão não cumprido na maioria das prevenções atuais.
Heath define o fenómeno como “fatorologia de risco”: medicalização de saudáveis, burocratização dos cuidados e erosão da relação clínica. Como solução, propõe que a saúde pública retome seu foco original nos determinantes ambientais e políticas estruturais, citando Aneurin Bevan: “O perigo está onde o comercialismo privado colide com o serviço público”.
NR/HN



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