Açores apresentam “elevadíssima” taxa de gravidez na adolescência

29 de Julho 2025

O estigma e o tabu associados à interrupção voluntária da gravidez (IVG) nos Açores levam a que a região registe atualmente uma “elevadíssima taxa de gravidez na adolescência”, denunciou hoje a UMAR, Associação para a Igualdade e Direitos das Mulheres.

“Os Açores registam hoje uma taxa elevadíssima de gravidez na adolescência, porque muitas jovens têm receio de contar aos pais ou aos namorados que estão grávidas”, realçou a presidente da UMAR/Açores, Maria José Raposo, durante uma audição na Comissão de Assuntos Sociais da Assembleia Legislativa Regional, que esteve reunida em Ponta Delgada.

Os deputados ao parlamento açoriano estão a ouvir várias instituições, a propósito de duas propostas, apresentadas pelos deputados do PAN e do BE, que pretendem facilitar o acesso à IVG por parte das pacientes residentes no arquipélago, muitas das quais têm de se deslocar ao continente para completar o tratamento.

Maria José Raposo queixou-se também da demora na resposta médica aos pedidos de realização de IVG nos Açores, que muitas vezes obrigam a pedidos de informação adicionais, exames complementares, consultas de psicologias, apoio social e marcação de viagens para outra ilha ou para o continente português.

“Muitas vezes a IVG, que devia poder ser feita de um dia para o outro, num dos três hospitais dos Açores, obriga as mulheres a esperar 15 dias”, entre consultas, exames, viagens e deslocações, advertiu.

Também Patrícia Cardoso, da “Associação Escolha”, dedicada ao apoio às mulheres que pretendam realizar IVG, criticou a legislação nacional sobre o aborto por, no seu entender, “penalizar” quem a faz. Desde que a lei foi aprovada, há 18 anos, referiu, 58 mulheres foram a tribunal e 33 delas chegaram a ser condenadas, embora com penas suspensas.

“É penoso ver a forma como muitas mulheres continuam a ser tratadas. É muito grave que as mulheres sejam penalizadas por uma decisão que devia ser só delas”, insistiu Patrícia Cardoso, lamentando que em Portugal o aborto apenas seja possível nas primeiras 10 semanas de gestação.

A responsável pela “Associação Escolha” queixou-se ainda do “assédio moral” de que são alvo as mulheres que pretendem interromper a gravidez nos Açores, um arquipélago que considerou “machista e retrógrado” e onde existem também muitos casos de violência doméstica.

António Lima, deputado único do BE no parlamento açoriano explicou, durante a reunião, que há nos Açores um número elevado de médicos objetores de consciência (recusam-se a realizar IVG), obrigando muitas mulheres a deslocarem-se ao continente: “É um claro constrangimento e uma barreira no acesso à interrupção voluntária da gravidez.”

A secretária regional da Saúde e da Segurança Social, Mónica Seidi, explicou que, na região, apenas no Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada, existem médicos disponíveis para realizarem abortos.

No Hospital do Santo Espírito, na Terceira, não há clínicos disponíveis para o efeito e no Hospital da Horta, no Faial, apenas há um médico disponível, mas a lei sobre o aborto obriga a que a IVG seja realizada por pelo menos dois médicos obstetras.

“Há uma carência significativa de recursos humanos nesta área”, reconheceu Mónica Seidi, lembrando que “os últimos concursos lançados para a contratação de médicos obstetras nos Açores têm ficado desertos”.

Numa audição anterior sobre o tema, a Associação para o Planeamento Familiar e Saúde Sexual nos Açores já tinha referido que a objeção de consciência invocada pelos profissionais de saúde dos Açores não devia colocar em causa o acesso das pacientes à interrupção voluntária da gravidez.

Segundo dados divulgados pela associação, em apenas um ano, 158 mulheres açorianas requereram a interrupção voluntária da gravidez, mas apenas 10% conseguiram fazê-la no arquipélago. As restantes tiveram de se deslocar ao continente.

lusa/HN

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

O relatório OCDE e o resto: o que os números da saúde não mostram

Praticamente toda a população portuguesa tem cobertura para um conjunto central de serviços de saúde, atingindo a universalidade. Contudo, apenas 58% dos cidadãos dizem estar satisfeitos com a disponibilidade de cuidados de qualidade, um valor que fica abaixo da média dos países mais desenvolvidos

Prevenção em Contraciclo: Os Dois Rostos da Qualidade da Saúde em Portugal

O relatório “Health in a Glance 2025” da OCDE revela um sistema de saúde português com contrastes. Enquanto a adesão ao rastreio do cancro da mama, com 55,5%, fica aquém da média da OCDE, a prescrição de antibióticos mantém-se elevada, sublinhando desafios antigos na prevenção de doenças e no uso prudente de medicamentos

Assimetrias Regionais em Saúde Desenham Dois Países Diferentes Dentro de Portugal

Um retrato detalhado do sistema de saúde português revela um país cindido por assimetrias regionais profundas. Enquanto o litoral concentra hospitais e especialistas, o interior enfrenta desertificação médica, acessos limitados e piores resultados de saúde, desde uma menor esperança de vida a uma maior mortalidade prematura. As políticas públicas existentes são apontadas como insuficientes para travar este fosso, que espelha desigualdades socioeconómicas

Disparidades de género na saúde: Homens morrem mais cedo, mulheres vivem mais anos doentes

Em Portugal, como no resto da OCDE, os homens vivem em média menos 5,8 anos do que as mulheres, mas o paradoxo de género revela-se nos detalhes: elas passam uma proporção significativamente maior da sua vida em pior estado de saúde. Esta dupla realidade, com os homens a morrerem mais cedo de causas externas e doenças cardiovasculares e as mulheres a carregarem um fardo pesado de doenças crónicas e incapacitantes, desafia os sistemas de saúde a desenvolverem respostas mais direcionadas

Saúde dos Profissionais de Saúde: O Elo Mais Fraco do Sistema em Portugal

O relatório da OCDE revela uma crise silenciosa a minar o SNS: o esgotamento extremo dos seus profissionais. Com 47% dos médicos e 52% dos enfermeiros com burnout, Portugal destaca-se negativamente na Europa. Este não é apenas um problema de bem-estar individual, mas uma ameaça direta à qualidade e segurança dos cuidados de saúde prestados à população

Relatórios internacionais alertam para dupla desigualdade na saúde: entre géneros e entre ricos e pobres

Portugal observa uma transformação subtil na forma como encara a população mais velha. Para lá dos números, ganham corpo iniciativas que procuram responder ao desafio do isolamento e da inatividade, envolvendo autarquias, instituições de solidariedade e os próprios idosos na construção de respostas que vão do exercício físico ao apoio comunitário. Um movimento que tenta, devagar, mudar uma cultura

Literacia em saúde digital: novo fosso geracional em Portugal

A transição digital em saúde, promessa de eficiência, está a criar uma nova forma de exclusão em Portugal. Com 38% dos idosos incapazes de usar as plataformas, o fosso geracional ameaça o acesso aos cuidados. Da marcação de consultas à renovação de receitas, a falta de literacia digital deixa para trás os mais vulneráveis, transformando a inovação numa barreira. Urge humanizar a digitalização

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights