Angolana veio para Portugal por razões de saúde e tornou-se empresária

3 de Agosto 2025

A angolana Wilma André veio há quatro anos para Portugal por razões de saúde, fixou residência em Coimbra e depressa se tornou empresária e estudante de mestrado da Faculdade de Economia da cidade.

Titular de três licenciaturas obtidas em universidades estrangeiras, na África do Sul e no Brasil, Wilma nasceu em Luanda em 1985 e já conhecia Coimbra de uma anterior experiência profissional.

Tinha cerca de 25 anos quando chegou com o primeiro filho, de apenas três meses, para realizar, na tecnológica Critical Software, um estágio de dois anos e meio, com uma bolsa do Ministério dos Recursos Naturais, Petróleo e Gás de Angola.

“Vim para fazer a minha especialização em Engenharia Informática. Foi uma reviravolta na minha vida. É uma alegria ver que consegui vencer certos medos”, disse Wilma André à agência Lusa.

Na sua opinião, “os portugueses são um povo muito acolhedor”.

Dessa vez, então jovem, teve o apoio dos pais durante algumas semanas e seria também na cidade do Mondego que mais tarde procurou tratamento médico especializado.

Acabou por fixar residência em Coimbra, onde os dois filhos, de 14 e 11 anos, estão a estudar.

“A relação entre portugueses e angolanos é uma relação de irmandade. Enquanto povos irmãos, é uma relação de cuidado e cooperação”, defendeu.

Entretanto, como o pai já morreu, em Angola, a mãe vive agora com os três, enquanto o marido, ainda no país africano, planeia juntar-se à família.

Em Luanda, Wilma André, agora com 40 anos, trabalhou ainda algum tempo no Banco Atlântico (BA), primeiro como ‘caixa’ e depois como quadro superior.

“Foi uma experiência bonita que me ensinou a ser a mulher que me tornei hoje”, disse.

Essa “miúda cheia de expectativas”, porém, “nem sequer sabia contar o dinheiro angolano”.

“Aprendi tudo do zero, porque não cresci em Angola”, recordou, contando que depois foi convidada para “abraçar novo desafio” no BA, na nova Cidade Financeira da capital da antiga colónia, que em novembro completa 50 anos de independência.

“Não sou mulher de dizer não a nada”, congratulou-se, para indicar que assumiu ainda “outro desafio, a trabalhar mais de perto com os líderes de topo” do banco.

Estava a ficar “viciada no trabalho”, o que lhe causou extrema exaustão, com evidências de ‘burnout’ e outros problemas de saúde.

“Eu é que tinha de criar uma estabilidade emocional para poder viver com serenidade”, disse, ao explicar que, 15 anos depois, em 2022, voltou a Coimbra para tratamento.

Abriu duas lavandarias ‘self service’ na cidade e ela mesmo assegura o seu funcionamento nos 365 dias do ano.

“Estou aqui para ajudar o próximo, independentemente de ser em Angola ou em Portugal. Se puder criar emprego, faz toda a diferença”, declarou.

Em Portugal, entre outras formações, aprofundou os conhecimentos em gestão estratégica com um MBA pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC) e dois mestrados, um em gestão, igualmente pela FEUC, e outro em gestão de recursos humanos pela Universidade Europeia.

“Atualmente, sou empresária e empreendedora também, tudo em simultâneo, agora na fase final da investigação do curso de mestrado e já com novos projetos”, sublinhou.

Reconhecendo não ser uma imigrante com o perfil médio da maioria dos seus compatriotas, salientou que está a contribuir para a economia do país.

Questionada pela Lusa sobre as novas restrições legais à permanência de imigrantes em Portugal, disse que o assunto a “preocupa bastante” e que “cada caso é um caso”.

“Importa legalizar os que estão a trabalhar e garantir que todos fazem bem o seu trabalho. Não os legalizar cria revolta”, alertou.

Para Wilma André, que possui diversos graus académicos superiores, há pessoas que “estão aqui para ajudar o país a crescer e que se sentem feridas por alguns comentários menos bons”.

Na África do Sul, licenciou-se em Engenharia Metalúrgica e em Engenharia Informática, a que se seguiu, no Brasil, a licenciatura em Administração de Empresas.

“A Wilma é a experiência vivida de que a formação tem valor quando se traduz em desenvolvimento pessoal e inovação, permitindo aos estudantes reforçarem as convicções de que podem ter um papel na sociedade”, declarou à Lusa a professora da FEUC Teresa Carla Trigo Oliveira, que orienta a tese da mestranda.

Em Portugal, a cidadã angolana acaba de criar a Will Natura Beauty, uma marca de cosméticos à base de produtos naturais cuja apresentação decorreu sábado na região de Lisboa.

lusa/HN

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