Aminoácidos: a moeda secreta na guerra entre cancro e imunidade

16 de Agosto 2025

Cientistas da Universidade de Tongji revelam como os tumores monopolizam aminoácidos, paralisando células imunitárias e promovendo progressão cancerígena. A revisão detalha este "diálogo metabólico" e terapias promissoras que reprogramam o microambiente tumoral para restaurar defesas imunitárias

Uma revisão científica abrangente publicada na revista Cancer Biology & Medicine (DOI: 10.20892/j.issn.2095-3941.2025.0115), liderada por investigadores do Centro de Cancro da Universidade de Tongji, expõe o papel crucial dos aminoácidos como elementos centrais na luta feroz entre células cancerígenas e o sistema imunitário. Coordenado pelo Dr. Ping Wang, o trabalho demonstra que, longe de serem meros nutrientes passivos, os aminoácidos funcionam como uma moeda de troca e linguagem molecular manipulada pelos tumores para garantir sobrevivência e suprimir defesas. No microambiente tumoral – um campo de batalha metabólico de alto risco –, os tumores monopolizam aminoácidos essenciais, privando células imunitárias como linfócitos T e macrófagos dos recursos necessários. Esta estratégia de “cerco metabólico” cria imunossupressão, favorecendo progressão do cancro e resistência às imunoterapias.

A revisão detalha como diferentes aminoácidos são explorados: a glutamina impulsiona a proliferação cancerígena enquanto sua depleção incapacita linfócitos T; a arginina, crucial para ativação de células T, é esgotada por macrófagos associados ao tumor que expressam arginase; o triptofano é convertido em quinurenina por enzimas tumorais (como IDO ou TDO), suprimindo células T via recetor AhR; e a metionina, vital para metilação do ADN, é avidamente consumida por células cancerígenas, perturbando a programação epigenética dos linfócitos.

Além da função nutricional, os aminoácidos atuam como moléculas sinalizadoras. Sensores como mTOR, AMPK e AhR decifram seus níveis, desencadeando vias de sobrevivência tumoral e evasão imune. Salienta-se ainda a descoberta de novos sensores (TARS2 e HDAC6), identificados como alvos terapêuticos inexplorados. O Dr. Ping Wang, autor correspondente, sublinhou: “Os aminoácidos não são apenas nutrientes — são a linguagem que os tumores e as células imunitárias usam para comunicar. Ao compreender este diálogo metabólico, podemos intercetá-lo e reescrevê-lo. O nosso trabalho lança as bases para uma nova classe de terapias que capacitam o sistema imunitário para contra-atacar com maior eficácia.”

Face a estes desafios, exploram-se estratégias terapêuticas emergentes: inibidores enzimáticos (glutaminase, arginase, IDO/TDO); suplementação direcionada via nanopartículas; manipulação dietética como restrição de metionina; modulação microbiana com probióticos; e imunoterapias avançadas como células CAR-T geneticamente modificadas para resistir à depleção nutricional. Estas abordagens são testadas em combinação com inibidores de checkpoint imunológico, visando sinergias antitumorais. A integração do perfil metabólico na oncologia promete tratamentos mais personalizados, capazes de superar resistências e melhorar a sobrevivência dos doentes, posicionando o metabolismo dos aminoácidos como eixo fundamental da próxima geração de terapias contra o cancro.

Referência: Paper title: Amino acids shape the metabolic and immunologic landscape in the tumor immune microenvironment: from molecular mechanisms to therapeutic strategies

NR/HN/AlphaGalileo

 

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