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As clínicas de proximidade inauguradas em 2024 no Bairro do Armador e na Alta de Lisboa, no âmbito do Projeto +Saúde, realizaram um total de quase seis mil consultas de clínica geral, nutrição e enfermagem, destinadas a uma população gravemente carenciada de acesso a cuidados de saúde.
Estes equipamentos, resultantes de uma parceria entre os Serviços Sociais da Câmara Municipal de Lisboa e a empresa municipal Gebalis, surgiram para colmatar lacunas do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Desde a sua abertura, em março e maio do ano passado, as duas unidades contabilizam 2.296 consultas de clínica geral, mais de 470 de nutrição e mais de 3.000 de enfermagem.
Os números revelam a dimensão da necessidade. Na Unidade de Cuidados de Saúde Primários (UCSP) do Bairro do Armador estão inscritas mais de 22.000 pessoas, das quais 13.173 não têm médico de família. Na Alta de Lisboa, a situação é ainda mais crítica: menos de 30% dos 37.560 utentes inscritos na UCSP de Santa Clara e Lumiar têm médico atribuído.
Rui Julião, diretor clínico dos Serviços Sociais da Câmara Municipal de Lisboa, explicou à Lusa que “as pessoas têm dois tipos de desfavorecimento: um económico-financeiro e outro de falta de conhecimento”, salientando a forte relação entre a pobreza e uma maior carga de doença. Apesar de uma adesão inicial hesitante às consultas de nutrição, a taxa de presença supera agora os 80%. Julião destacou igualmente o “sucesso na área da enfermagem”, onde os utentes podem aferir gratuitamente tensão arterial, glicose ou realizar pensos.
A clínica do Bairro do Armador funciona com um médico três dias por semana, uma enfermeira três dias e uma nutricionista um dia. Na Alta de Lisboa, um médico assegura clínica geral dois dias por semana, uma enfermeira dois dias e uma nutricionista um dia.
O investimento inicial de instalação no Armador foi de 21.000 euros, com despesas anuais de funcionamento de 78.000 euros. Na Alta de Lisboa, o custo de instalação ascendeu a 35.000 euros, com um custo de funcionamento no primeiro ano de 60.000 euros.
Com uma taxa de presença nas consultas de clínica geral acima dos 90%, Rui Julião admitiu uma “evolução qualitativa” do projeto, ponderando estender a nutrição às escolas e à saúde materno-infantil. “No fundo, trata-se de uma educação para criar hábitos saudáveis”, afirmou. O diretor clínico defendeu uma “verdadeira municipalização da saúde” como única forma de melhorar o acesso aos cuidados, sublinhando que os números da falta de médicos nos dois bairros “são avassaladores”. “É no acesso que tudo se determina, determina-se o presente e o futuro”, rematou.
João Carmona, médico no Bairro do Armador, descreveu a população como “carente, muito envelhecida e que necessita com urgência” de cuidados. “As pessoas não têm consultas, pois são difíceis de marcar, (…) e estas unidades vieram colmatar um pouco esta necessidade de acesso, nem que seja para a medicação”, disse, acrescentando que a falta de serviços de atendimento permanente obriga muitas pessoas a recorrerem às urgências hospitalares.
NR/HN/Lusa



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