Rui Cernadas Médico de Família

O SNS … E PORTUGAL merecem uma “cidadania empenhada”!

09/08/2025

Estamos todos cansados de ouvir relacionar o SNS com o texto fundamental da Nação, a Constituição.

Ou esquecidos da consagração do direito à saúde e em moldes de prestação universal tendencialmente gratuita.

O tempo passa por todos nós e falar em recordação não é o mesmo que dizer ou citar marcadores dessa passagem sempre fugaz.

Há talvez um pouco mais de dez anos li e fui despertado pela leitura de uma entrevista, concedida no Brasil a jornalista brasileiro, por Francis Wolff, filósofo gaulês que, lapidar resumia:

– “O povo está para a democracia como Don Juan está para as mulheres.”

Não cabe aqui maior detalhe ou profundidade sobre o modo como justificava esta ideia, mas, basicamente, o que expressou foi que a conquista da democracia é que se torna e é mobilizadora, congregadora e indomável, ao passo que a sua conservação, manutenção e alimentação são fatigantes e entediantes.

Mas por si mesma ou pelos actores que a dirigem e conduzem?

 

A Saúde e o SNS português são neste sentido similares.

O povo que sublinhou e assinalou o SNS como a principal conquista pós-25 de Abril acomodou-se ao seu desgaste, incapacidade de investimento e acomodação às más rotinas, aceitando sem contestação nem exigência uma dependência exclusiva do financiamento orçamental do estado, numa total ausência de discussão de políticas de saúde em termos estratégicos nas campanhas eleitorais e nos momentos de aprovação dos programas de governo e Orçamento Geral do Estado!

Os guiões mediáticos de temas absurdos, ridículos ou espalhafatosos estupidificam-nos e dão audiências!

Os Administradores Hospitalares e os Ministérios da Saúde e das Finanças adoptaram uma moldura inaceitável de cobertura dos défices no ano fiscal posterior, com protelamento ostensivo de devidas a fornecedores e trabalhadores, em constante subida.

O desinteresse dos cidadãos e enquanto eleitores chega ao ridículo de se resumir a queixumes raros ou repetidos, sem que os políticos do sistema os estudem ou discutam, propondo correcções ou reformas sérias.

Os elementos e linhas que os partidos enunciam nos programas eleitorais são listas de medidas avulsas, incoerentes e não orçamentadas, quais listas de compras para supermercados – ovos, sal, lixivia, sacos para o lixo.

Por outro lado, escutam-se promessas repetidas de construção de estruturas hospitalares ou de centros de saúde, até de mega-hospitais, mas o povo assiste sem entusiasmo e adoentado ao seu SNS, a caminho do final de 2025, ao malogro de muitas garantias – médico de família para cada português, as unidades de saúde familiar como paradigma de uma nova tipologia de cuidados, cuidados pré-hospitalares de eficiência, vias verdes hospitalares, programas de redução de listas de espera, rede de urgências capazes e operativas…

A questão dos profissionais do SNS é outra questão.

Faltarão certamente e em lugar ou actividade alguma, mas em Portugal os profissionais nunca são os suficientes, os mais preparados ou mais trabalhadores.

Mas na mesma relação, a capacidade de dirigir e dialogar com pessoas e de gerir, gerir mesmo, é além de autista, deficitária. E muitas vezes ainda partidarizada.

 

O apolitismo, essa rejeição e recusa em participação cívica nas escolhas governativas ou na discussão pública que se impõe, necessita e exige é muito mais do que abstencionismo.

É uma forte e tremenda ameaça à Democracia e é, neste caso, tramada para o SNS!

Como me diz um Amigo, Portugal merece uma “cidadania empenhada”!

 

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