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Na sequência de um episódio de doença de um familiar, tive a oportunidade de viver e sentir a realidade de um serviço de urgência de um Hospital Público.
Não interessa quem é o familiar, qual a doença ou, mesmo, qual o Hospital.
Não interessam, de igual modo, os números, as métricas, os planos estratégicos futuros ou os erros passados.
Perceber o estado da saúde em Portugal será sempre mais fiável quando entramos no sistema, quando o vemos por dentro, quando nele passamos doze horas para receber um frasco de soro para reposição hidroelectrolítica, para fazer umas análises laboratoriais e para receber uma dose de antibiótico intravenoso, tudo isto com o meu familiar sentado num cadeirão, rodeado de doentes, médicos, enfermeiros e auxiliares a entrar e a sair. Durante doze horas.
O diagnóstico tinha sido feito na véspera e, por falta de vagas, acordou-se o retorno a casa com garantia de regresso no dia seguinte para o tal soro, repetição de análises e administração da segunda dose de antibiótico.
Entrada pelas 9,30. Soro apenas colocado duas horas depois. Colheita para análises depois da hora de almoço e segunda dose de antibiótico às 20,30.
O resto do tempo? Nada. Rigorosamente nada. Para um pedido de ida ao quarto de banho foi necessária mais de uma hora para que alguém reagisse ao seu braço erguido. Quem reagiu acabou por ser um médico que pediu a um enfermeiro que ajudasse o meu familiar. Tal aconteceu, não sem antes lhe ser sussurrado: “obrigado por ter feito queixa de mim…”
Nas horas em que estive presente, cerca de quatro, presenciei:
- Administrativos arrogantes e mal-educados
- Administrativos atenciosos e preocupados
- Enfermeiros sem qualquer vontade de se esforçarem, arrastando-se pelos corredores lentamente, a ganharem tempo até à hora da saída e a perderem o tempo de quem espera.
- Enfermeiros sorridentes e despachados, com vontade genuína de ajudar
- Médicos ao telefone para a frente e para trás vezes sem conta
- Médicos a realizarem diferentes tarefas e gestos técnicos em diferentes doentes num ambiente povoado de pessoas literalmente a centímetros umas das outras
- Agentes da autoridade a discutirem com enfermeiros pela desorganização e ausência de comunicação
- Doentes com tentativa de suicídio a escapulirem pela porta de saída porque ninguém estava a tomar atenção.
Presenciei um hospital sujo, tinta a cair, janelas por limpar, ares condicionados que são autênticas colónias de férias para microrganismos.
Pode este retrato ser injusto? Sem dúvida. Nada sei sobre as circunstâncias específicas de cada um destes profissionais. Mas sei que nada, nada mesmo, justifica o tom sobranceiro, a falta de educação e a falta de empatia. O cansaço, a desmotivação, nada nos deve afastar do foco do nosso trabalho: o doente. E isso aconteceu neste domingo inúmeras vezes.
Não é compreensível que um doente passe doze horas num hospital para receber um frasco de soro, colher sangue para análises, esperar pelos seus resultados que estão automatizados e para fazer uma dose de antibiótico.
E esse cadeirão poderia ter sido utilizado por outros pacientes, uma vez que não havia camas nem macas disponíveis.
Aquele cadeirão era horrível, desconfortável, Para se ir ao quarto de banho ainda temos de ser quase ameaçados porque nos dizem que fizemos queixa! Pedir para ir ao quarto de banho é fazer queixa?…
Aquela sala tinha, numa área pequena, dezenas de pessoas que entravam e saiam, a maioria sem máscara. Expor doentes idosos (a maioria) a um ambiente destes é um risco acrescido.
A sua privacidade não existe. Tudo é falado em frente de todos.
Para os familiares é um dia inteiro perdido. Imaginem isto durante a semana e multiplicado por todos os hospitais do país. O número insano de hora de trabalho perdidas. Os custos para a nossa economia.
Mais do que os factores individuais, que são cruciais e que têm de ser objecto de formação e correcção constantes, existe uma óbvia ineficácia do sistema.
O meu familiar não esteve ali doze horas por falta de recursos ou excesso de trabalho. Muitos dos profissionais circulavam de um lado para o outro sem uma sequência, um propósito ou um método. As redundâncias são enormes. E o espírito de rendição acaba por prevalecer.
No dia seguinte, o meu familiar e a filha voltaram ao hospital para se programar com a equipa de enfermagem domiciliária o acompanhamento subsequente. Foi pedido para chegarem às 8,00. São neste momento em que escrevo, 12,00, o médico já disse várias vezes que estava a aguardar a chegada da equipa sem resultado. Neste momento, resolveu-se colher sangue ao meu familiar para novas análises, algo que já podia ter sido feito. Iremos ter, portanto, mais umas horas para os resultados e para que todo o processo se conclua. O meu familiar, de 85 anos, está sentado numa cadeira. A filha está de pé próximo da Unidade de Ambulatório, andando de um lado para o outro para ir marcando presença e ver se não se esquecem deles. E o trabalho dela? Não interessa…
Um frasco de soro + análises + antibiótico = 12 horas
Esta equação parece fazer-lhe sentido? Seguramente que não.
Mas, no fundo, é ela que melhor define o estado actual do nosso SNS. Uma máquina mal gerida, ineficaz, em que as populações são meros peões expostos a potenciais fontes de contágio e, no mínimo, a saírem do hospital à beira de um ataque de nervos.
Como eu nesse domingo em “apenas” 4 horas…
Falta de recursos humanos? Talvez. Mas, sobretudo, falta de liderança e de brio.
A primeira pode ser melhorada pelas administrações. A segunda depende de cada um. Ou se tem, ou não se tem…
Este artigo foi escrito respeitando o acordo ortográfico anterior a 1990.


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