Subnutrição ameaça mais de 114 mil menores de 5 anos em Moçambique em 2025

16 de Setembro 2025

A Direção-Geral da Proteção Civil e das Operações de Ajuda Humanitária Europeias (ECHO) estima que 114.208 crianças menores de 5 anos sofram de subnutrição aguda em Moçambique este ano, incluindo 29.903 na forma mais grave, foi hoje anunciado.

“Os principais fatores de insegurança alimentar aguda em Moçambique incluem o conflito em curso na região norte do país, o impacto da seca induzida pelo El Niño, ciclones recorrentes e outros choques climáticos”, lê-se num comunicado do ECHO, consultado pela Lusa.

De acordo com o organismo, ao longo de 2025 estima-se que 114.208 crianças com menos de 5 anos sofram de subnutrição – forma de desnutrição que resulta da ingestão insuficiente de nutrientes essenciais – aguda, incluindo 29.903 de subnutrição aguda grave.

Fazendo referência ao recente relatório da Classificação Integrada das Fases de Segurança Alimentar – IPC em Moçambique, o ECHO avança que, entre abril e setembro de 2025, cerca de 2,1 milhões de pessoas enfrentam níveis de insegurança alimentar “críticos ou piores” (IPC3+), incluindo cerca de 142.893 em níveis de emergência (IPC4).

“Para a próxima época de escassez (outubro de 2025 a março de 2026), projeta-se que a situação se agrave, estando previstos 2,67 milhões de pessoas no IPC3+, incluindo 170.183 no IPC4”, avança.

A Direção-Geral da Ajuda Humanitária e da Proteção Civil alerta ainda que a província de Cabo Delgado, norte do país, rica em gás e que enfrenta uma insurgência armada desde 2017, continua a ser uma situação particularmente preocupante, com 724.819 pessoas atualmente no nível IPC3+, incluindo 71.085 no IPC4.

“Os distritos de Chiúre, Macomia e Macímboa da Praia são os mais afetados. Partes das províncias de Nampula, Tete e Sofala também apresentam níveis elevados de casos de IPC3+”, acrescenta-se no documento.

Em 13 de agosto, o Governo moçambicano avançou que os níveis de desnutrição crónica em crianças moçambicanas menores de 5 anos reduziram seis pontos percentuais em dez anos, para 37% em 2023, prevalecendo entre as causas os desastres naturais “intensos e cíclicos”.

“A taxa de desnutrição crónica em crianças menores de 5 anos de idade reduziu de 43% em 2013 para 37% em 2023. Contudo, os níveis de desnutrição crónica em crianças menores de 5 anos de idade no nosso país ainda são elevados, tendo em conta os parâmetros estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 20%”, disse na altura Benvinda Levi, primeira-ministra moçambicana, em Maputo.

Segundo a governante, vários fatores contribuem para o elevado índice de desnutrição crónica no país, como os desastres naturais “intensos e cíclicos”, caracterizados por secas, inundações, ciclones tropicais e epidemias, “que impactam negativamente na segurança alimentar”.

O Observatório do Meio Rural (OMR), Organização Não-Governamental (ONG) moçambicana, alertou em finais de julho que Moçambique continua a registar níveis críticos de desnutrição crónica e insegurança alimentar, apontando para consequências a longo prazo.

Grupos de organizações da sociedade civil no país têm alertado para a urgência no combate à desnutrição infantil em Moçambique, situação agravada por fatores climáticos e de segurança.

Segundo dados do Governo, dois milhões de moçambicanos estão em situação de insegurança alimentar, dos quais 148 mil necessitam de “assistência humanitária urgente”.

Só entre dezembro e março, o país já foi atingido por três ciclones, que, além da destruição de milhares de casas e infraestruturas, provocaram centenas de mortos no norte e centro do país.

Os eventos extremos provocaram pelo menos 1.016 mortos em Moçambique entre 2019 e 2023, afetando cerca de 4,9 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística.

lusa/HN

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

O relatório OCDE e o resto: o que os números da saúde não mostram

Praticamente toda a população portuguesa tem cobertura para um conjunto central de serviços de saúde, atingindo a universalidade. Contudo, apenas 58% dos cidadãos dizem estar satisfeitos com a disponibilidade de cuidados de qualidade, um valor que fica abaixo da média dos países mais desenvolvidos

Prevenção em Contraciclo: Os Dois Rostos da Qualidade da Saúde em Portugal

O relatório “Health in a Glance 2025” da OCDE revela um sistema de saúde português com contrastes. Enquanto a adesão ao rastreio do cancro da mama, com 55,5%, fica aquém da média da OCDE, a prescrição de antibióticos mantém-se elevada, sublinhando desafios antigos na prevenção de doenças e no uso prudente de medicamentos

Assimetrias Regionais em Saúde Desenham Dois Países Diferentes Dentro de Portugal

Um retrato detalhado do sistema de saúde português revela um país cindido por assimetrias regionais profundas. Enquanto o litoral concentra hospitais e especialistas, o interior enfrenta desertificação médica, acessos limitados e piores resultados de saúde, desde uma menor esperança de vida a uma maior mortalidade prematura. As políticas públicas existentes são apontadas como insuficientes para travar este fosso, que espelha desigualdades socioeconómicas

Disparidades de género na saúde: Homens morrem mais cedo, mulheres vivem mais anos doentes

Em Portugal, como no resto da OCDE, os homens vivem em média menos 5,8 anos do que as mulheres, mas o paradoxo de género revela-se nos detalhes: elas passam uma proporção significativamente maior da sua vida em pior estado de saúde. Esta dupla realidade, com os homens a morrerem mais cedo de causas externas e doenças cardiovasculares e as mulheres a carregarem um fardo pesado de doenças crónicas e incapacitantes, desafia os sistemas de saúde a desenvolverem respostas mais direcionadas

Saúde dos Profissionais de Saúde: O Elo Mais Fraco do Sistema em Portugal

O relatório da OCDE revela uma crise silenciosa a minar o SNS: o esgotamento extremo dos seus profissionais. Com 47% dos médicos e 52% dos enfermeiros com burnout, Portugal destaca-se negativamente na Europa. Este não é apenas um problema de bem-estar individual, mas uma ameaça direta à qualidade e segurança dos cuidados de saúde prestados à população

Relatórios internacionais alertam para dupla desigualdade na saúde: entre géneros e entre ricos e pobres

Portugal observa uma transformação subtil na forma como encara a população mais velha. Para lá dos números, ganham corpo iniciativas que procuram responder ao desafio do isolamento e da inatividade, envolvendo autarquias, instituições de solidariedade e os próprios idosos na construção de respostas que vão do exercício físico ao apoio comunitário. Um movimento que tenta, devagar, mudar uma cultura

Literacia em saúde digital: novo fosso geracional em Portugal

A transição digital em saúde, promessa de eficiência, está a criar uma nova forma de exclusão em Portugal. Com 38% dos idosos incapazes de usar as plataformas, o fosso geracional ameaça o acesso aos cuidados. Da marcação de consultas à renovação de receitas, a falta de literacia digital deixa para trás os mais vulneráveis, transformando a inovação numa barreira. Urge humanizar a digitalização

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights