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A Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) manifestou reservas sobre a possibilidade de o acompanhamento de grávidas de baixo risco sem médico de família passar a ser feito exclusivamente por enfermeiros especialistas. A posição surge em reação às declarações da ministra da Saúde, que se mostrou disponível para avaliar a proposta da Ordem dos Enfermeiros.
Num comunicado divulgado esta terça-feira, a APMGF não escondeu algum desconforto com o timing do debate, considerando que a divulgação de informações sobre “alterações profundas” no programa de vigilância, antes das conclusões dos grupos de trabalho, “é um fator de preocupação”. A associação sustenta que as soluções devem ser sempre alicerçadas em evidência científica e não em impulsos políticos.
O cerne da questão, para os médicos de família, prende-se com a defesa intransigente de um modelo multidisciplinar. “Médicos não substituem enfermeiros e enfermeiros não substituem médicos. Cada profissão tem o seu valor único e insubstituível”, pode ler-se no documento. A associação argumenta que o internato de Medicina Geral e Familiar, com a sua duração de quatro anos, confere aos especialistas uma formação abrangente que inclui saúde reprodutiva, vigilância da gravidez e dinâmicas familiares, competências que considera vitais para uma visão integral do doente.
A APMGF insiste que o caminho para a excelência dos cuidados passa por potenciar a complementaridade entre profissões, nunca por soluções de substituição que, na sua óptica, podem fragilizar a segurança clínica e a continuidade dos cuidados. O tom é de alerta: o futuro dos cuidados primários e da saúde materna não deve assentar em atalhos, mas sim num trabalho conjunto que coloque no centro a mulher, a criança e a família.
Apesar das críticas, a associação deixou claro estar disponível para colaborar com o Ministério da Saúde e com a Ordem dos Enfermeiros no desenho de modelos que efetivamente maximizem essa colaboração. Recorda, contudo, que a verdadeira solução para os problemas do Serviço Nacional de Saúde passa por um investimento sério no reforço de profissionais, na valorização das carreiras e na utilização inteligente de todos os recursos disponíveis.
Na audição parlamentar que originou esta polémica, a ministra da Saúde tinha precisamente sublinhado que uma eventual vigilância por enfermeiros especialistas teria de ser feita em articulação estreita com a medicina geral e familiar e com as unidades obstétricas hospitalares, um ponto que a APMGF parece agora querer ver devidamente acautelado e especificado.
NR/HN/Lusa



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