Cólera regressa a Moma após declaração de fim do surto

25 de Setembro 2025

As autoridades de saúde de Nampula reativaram o estado de surto de cólera no distrito de Moma. Registaram-se 36 casos em três semanas, sem mortes a assinalar, após um período em que a situação tinha sido dada como controlada

Nampula, 24 de setembro de 2025 (Lusa) – O distrito de Moma, na província nortenha de Nampula, voltou a ser declarado em situação de surto de cólera. A decisão surge na sequência de 36 casos identificados entre os dias 3 e 21 de setembro, um recrudescimento que apanhou as autoridades de saúde de surpresa, já que a emergência tinha sido dada como terminada anteriormente naquela região.

Jaime Miguel, chefe do departamento de saúde pública da direção provincial de saúde, confirmou os números. Dos 36 infetados, 34 receberam alta médica e os dois restantes continuam internados para tratamento, não se registando qualquer óbito associado a esta nova vaga. O responsável explicou que o alerta foi dado após a notificação de casos na localidade de Metil. “Orientamos os colegas a fazerem o rastreio. Dos quatro testes, três confirmaram e pedimos que pudesse reativar o surto e estão neste momento todos a fazer o tratamento”, afirmou Jaime Miguel, sublinhando a resposta rápida das equipas no terreno.

Este reaparecimento em Moma contrasta com o ambicioso plano do Governo moçambicano, aprovado a 16 de setembro, que visa eliminar a cólera como um problema de saúde pública no país até 2030. Um esforço orçado em 409 milhões de euros que, para já, não travou o ressurgimento da doença neste canto de Nampula.

A província continua a ser uma das mais afetadas pelo atual ciclo da doença. De acordo com o mais recente boletim da Direção Nacional de Saúde Pública, que contabiliza dados desde a declaração do surto em Mogovolas, também em Nampula, a 17 de outubro de 2024, até 13 de setembro último, a região somava 3.603 infetados e 40 óbitos. A nível nacional, a situação é agora considerada ativa apenas em dois distritos: Moma, em Nampula, e Muanza, na província de Sofala. Uma melhoria significativa face a julho, quando sete distritos em cinco províncias registavam transmissão ativa.

O surto de cólera em Moçambique mantém uma taxa de letalidade de 1,4%, sendo que 48 dos 64 óbitos totais ocorreram nas comunidades, fora do alcance das unidades sanitárias. Numa tentativa de conter a propagação, mais de 1,7 milhões de pessoas – cerca de 99% da meta inicial – foram vacinadas contra a doença em Nampula durante o mês de maio. Uma campanha massiva que, contudo, não impediu o recente foco em Moma, deixando no ar a complexidade do desafio que persiste.

NR/HN/Lusa

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

O relatório OCDE e o resto: o que os números da saúde não mostram

Praticamente toda a população portuguesa tem cobertura para um conjunto central de serviços de saúde, atingindo a universalidade. Contudo, apenas 58% dos cidadãos dizem estar satisfeitos com a disponibilidade de cuidados de qualidade, um valor que fica abaixo da média dos países mais desenvolvidos

Prevenção em Contraciclo: Os Dois Rostos da Qualidade da Saúde em Portugal

O relatório “Health in a Glance 2025” da OCDE revela um sistema de saúde português com contrastes. Enquanto a adesão ao rastreio do cancro da mama, com 55,5%, fica aquém da média da OCDE, a prescrição de antibióticos mantém-se elevada, sublinhando desafios antigos na prevenção de doenças e no uso prudente de medicamentos

Assimetrias Regionais em Saúde Desenham Dois Países Diferentes Dentro de Portugal

Um retrato detalhado do sistema de saúde português revela um país cindido por assimetrias regionais profundas. Enquanto o litoral concentra hospitais e especialistas, o interior enfrenta desertificação médica, acessos limitados e piores resultados de saúde, desde uma menor esperança de vida a uma maior mortalidade prematura. As políticas públicas existentes são apontadas como insuficientes para travar este fosso, que espelha desigualdades socioeconómicas

Disparidades de género na saúde: Homens morrem mais cedo, mulheres vivem mais anos doentes

Em Portugal, como no resto da OCDE, os homens vivem em média menos 5,8 anos do que as mulheres, mas o paradoxo de género revela-se nos detalhes: elas passam uma proporção significativamente maior da sua vida em pior estado de saúde. Esta dupla realidade, com os homens a morrerem mais cedo de causas externas e doenças cardiovasculares e as mulheres a carregarem um fardo pesado de doenças crónicas e incapacitantes, desafia os sistemas de saúde a desenvolverem respostas mais direcionadas

Saúde dos Profissionais de Saúde: O Elo Mais Fraco do Sistema em Portugal

O relatório da OCDE revela uma crise silenciosa a minar o SNS: o esgotamento extremo dos seus profissionais. Com 47% dos médicos e 52% dos enfermeiros com burnout, Portugal destaca-se negativamente na Europa. Este não é apenas um problema de bem-estar individual, mas uma ameaça direta à qualidade e segurança dos cuidados de saúde prestados à população

Relatórios internacionais alertam para dupla desigualdade na saúde: entre géneros e entre ricos e pobres

Portugal observa uma transformação subtil na forma como encara a população mais velha. Para lá dos números, ganham corpo iniciativas que procuram responder ao desafio do isolamento e da inatividade, envolvendo autarquias, instituições de solidariedade e os próprios idosos na construção de respostas que vão do exercício físico ao apoio comunitário. Um movimento que tenta, devagar, mudar uma cultura

Literacia em saúde digital: novo fosso geracional em Portugal

A transição digital em saúde, promessa de eficiência, está a criar uma nova forma de exclusão em Portugal. Com 38% dos idosos incapazes de usar as plataformas, o fosso geracional ameaça o acesso aos cuidados. Da marcação de consultas à renovação de receitas, a falta de literacia digital deixa para trás os mais vulneráveis, transformando a inovação numa barreira. Urge humanizar a digitalização

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights