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O Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas divulgou hoje, vinte e nove de Setembro, um balanço sombrio: nove mil cento e trinta e três pessoas foram mordidas por cães nos primeiros seis meses do ano, um número que, apesar de tudo, esconde uma ligeira mas consistente melhoria. Desse total de agressões, catorze resultaram em morte por raiva, um saldo que as autoridades consideram ainda inaceitavelmente elevado.
Os dados, tornados públicos por ocasião das celebrações do Dia Mundial de Combate de Luta Contra a Raiva, que hoje se realizaram na província de Maputo, pintam um retrato de um problema de saúde pública teimoso. A cerimónia serviu, nas palavras do ministério, para reforçar a necessidade de vacinar cães e gatos, um esforço considerado basilar para travar a cadeia de transmissão. A epidemiologia e o acesso rápido a tratamentos após uma mordedura foram outros dos pontos focais destacados no comunicado oficial.
Quando se recua no tempo, percebe-se uma lenta mas visível descida nos números. O ano de 2023 tinha fechado com um impressionante, e algo assustador, número de vinte e duas mil, cento e oitenta e quatro mordeduras, com trinta e cinco óbitos a golpear comunidades. Já em 2024, o total de casos reduziu-se para dezanove mil, novecentos e setenta e nove, com trinta e uma mortes associadas à doença. A trajectória é positiva, concordam os técnicos, mas insuficiente para baixar a guarda. O fantasma da raiva mantém-se, espreitando sobretudo as crianças com idade inferior a quinze anos, um grupo particularmente vulnerável.
Antónia Vaz, directora Nacional de Sanidade e Biossegurança, não poupou nas palavras durante a sua intervenção em Maputo. Classificou a raiva como endémica no país, uma das zoonoses que exige acção prioritária e que, por isso mesmo, está agarrada ao plano estratégico nacional. O objectivo, afirmou, é ambicioso: alinhar Moçambique na luta global para erradicar a raiva humana de origem canina até 2030. Para tal, o governo empenha-se na aquisição de vacinas antirrábicas para animais, um processo que nem sempre é linear.
“A raiva é uma doença mundialmente distribuída, porém, noventa e nove por cento dos casos ocorrem em África, Ásia e América Latina, onde os cães são os mais implicados”, explicou Vaz, num tom que alternava entre o técnico e o concreto. A responsável fez depois um apelo que tocava a responsabilidade individual: o gosto de ter um animal de companhia deve andar a par com obrigações bem definidas. O registo, os cuidados de saúde básicos e, de forma incontornável, a vacinação, não são meros detalhes, são imperativos de segurança. “Pois a raiva é uma doença transmissível e de consequências fatais”, rematou, num alerta solene que ecoou pela assistência.
Para além das formalidades oficiais, as comemorações integraram um leque de iniciativas de cariz popular e educativo. Palestras e representações teatrais ocuparam o espaço destinado à sensibilização, numa tentativa de fazer chegar a mensagem a todos os estratos da população, num país onde a convivência com animais vadios e a falta de recursos veterinários nas zonas rurais complica o combate a este velho inimigo.
NR/HN/Lusa



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