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Um retrato da violência contra a população mais velha em Portugal mostra que esta acontece maioritariamente à porta fechada, longe dos olhos das instituições. De acordo com um estudo da Fundação Bissaya Barreto, que compila uma década de dados da Linha SOS Pessoa Idosa, cerca de 67% das vítimas identificadas não beneficiavam de qualquer serviço da rede de apoio social, como apoio domiciliário ou centros de dia.
Esta ausência de enquadramento institucional contribui para que o abuso prospere no espaço privado, tornando-se num fenómeno particularmente opaco. A violência psicológica surge como a forma mais comum, representando 55% das queixas, seguida de perto pela negligência (41%). A exploração financeira afeta 28% dos casos, enquanto a agressão física se fica pelos 20%.
O perfil do agressor desenha um quadro familiar perturbador: em 47% das situações, trata-se de alguém que coabita diariamente com a vítima. Metade das vezes, o algoz é um filho ou filha. Marta Ferreira, responsável pela linha, sublinha a natureza oculta destas dinâmicas, onde medo, vergonha ou dependência funcionam como amarras que calam a vítima. Em cerca de 21% dos processos, a violência arrasta-se por mais de cinco anos, indicando um padrão de repetição crónico.
A solidão e a fragilidade surgem como fatores que se alimentam mutuamente. As mulheres, muitas delas viúvas e com algum grau de dependência física ou cognitiva, constituem a maioria das vítimas reportadas. A saúde mental revela-se uma peça fundamental neste puzzle sombrio. Estima-se que um quarto das vítimas sofra de demência e 22% padeça de doença mental, condições que ampliam a vulnerabilidade. Do lado do agressor, problemas de saúde mental estão presentes em 30% dos cenários, frequentemente entrelaçados com consumos de álcool ou drogas.
“As redes de apoio representam uma das ferramentas mais poderosas na prevenção e combate à violência, mas, infelizmente, o alcance é limitado”, admite Marta Ferreira. A responsável defende que este acompanhamento, para além de detetar casos, permite intervenções mais profícuas, funcionando como um fator de proteção tangível. “É crucial reforçar os recursos disponíveis e garantir que a saúde mental passa a ocupar um lugar central nas políticas públicas”, insistiu.
Apesar da dimensão do problema, a subnotificação mantém-se elevada. Em 58% dos contactos para a linha é pedido anonimato, um sinal claro do temor que ainda envolve a denúncia. “O silêncio continua a ser o maior aliado da violência. É essencial que a comunidade esteja atenta”, alerta a diretora do serviço.
A Linha SOS Pessoa Idosa (800 102 100) e o email sospessoaidosa@fbb.pt funcionam desde maio de 2014, assegurando confidencialidade e mediação familiar, numa tentativa de quebrar o ciclo de abuso que teima em permanecer entre quatro paredes.
NR/HN/Lusa



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