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Um estudo recente do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) expõe a realidade psicossocial dos cuidadores informais em Portugal, realçando as elevadíssimas exigências a que estão sujeitos e a insuficiência de recursos e reconhecimento. A equipa, composta pelas investigadoras Ângela Romão e Isabel Correia, adaptou pela primeira vez o instrumento COPSOQ II, habitualmente usado em contextos laborais formais, para analisar este universo frequentemente invisível.
Ângela Romão esclarece que a motivação passou por “caracterizar o ambiente de trabalho das pessoas cuidadoras para compreender os desafios diários que enfrentam”. O trabalho, não remunerado, partilha contudo traços com a atividade dos profissionais de saúde: é exigente, imprevisível e confere um controlo limitado a quem o executa.
Os resultados não deixam margem para dúvidas. As cuidadoras e cuidadores defrontam-se sobretudo com exigências cognitivas e emocionais avassaladoras, como a gestão do stresse ou o apoio emocional permanente a um familiar. Em contrapartida, os recursos de que dispõem são parcos – falta de tempo, reconhecimento quase nulo e um sentimento generalizado de injustiça. A “liderança”, aqui entendida como o Estado Português, é percecionada como distante e pouco confiável, falhando no apoio concreto.
Curiosamente, a investigação decorreu durante a pandemia de COVID-19, um período em que, apesar do agravamento da saúde mental dos cuidadores em relação à restante população, a carga de trabalho reportada se manteve similar à de tempos anteriores. “Em termos de carga de trabalho e carga emocional, é como se quem cuida estivesse sempre em contexto de pandemia”, observa Ângela Romão, sublinhando a pressão constante que define estas vidas.
Perante um país que possui o segundo índice de envelhecimento mais alto da União Europeia, e onde mais de metade dos cuidadores informais se encontra em situação de sobrecarga, as investigadoras defendem que é urgente uma intervenção das políticas públicas. A necessidade é clara: reduzir as exigências e valorizar o papel destas pessoas. “Responder às crescentes necessidades de cuidado de uma população envelhecida só será possível se se reconhecer e valorizar o papel insubstituível de milhares de cuidadores/as informais em Portugal”, remata Ângela Romão.
Os resultados deste trabalho serão apresentados no dia 5 de novembro, data em que se assinala o Dia Nacional do Cuidador Informal, durante a Conferência Inaugural do VII Encontro Nacional de Cuidadores Informais, no Entroncamento.
PR/HN



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