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O ministro da Saúde de Moçambique, Ussene Isse, apelou a uma mobilização sem precedentes do conhecimento ancestral para fazer face ao agravamento silencioso das doenças cardiovasculares no país. A estratégia, delineada durante o encontro do conselho consultivo do Instituto Nacional de Saúde (INS), em Maputo, passa por uma integração estruturada da medicina tradicional nos serviços nacionais de saúde.
“A medicina tradicional tem um peso muito importante para os africanos”, reconheceu Isse, num tom que mesclou a urgência com uma certa reverência pragmática. A sua posição assenta nos dados, que ele próprio classificou de preocupantes, do Inquérito Nacional de Prevalência de Fatores de Risco para as Doenças Crónicas Não Transmissíveis (InCRÓNICA) 2024. O estudo, que procurou aferir o estado de saúde dos moçambicanos, foi realizado em julho do ano passado em 126 distritos, uma empreitada colossal que juntou o INS, o Instituto Nacional de Estatística, o Ministério da Saúde e a Organização Mundial de Saúde.
Os números apresentados pintam um quadro difícil. O ministro admitiu, com uma franqueza algo incomum, que o relatório “mostrou, de forma muito preocupante, o agravamento de diversos fatores de doenças cardiovasculares”. Dois pontos emergem com particular força: a subida acentuada dos índices de obesidade e um recuo preocupante na prática de exercício físico entre a população. São sinais de um estilo de vida que se altera, e nem sempre para melhor.
Perante este cenário, o Governo não quer apenas abraçar a modernidade, mas também voltar atrás no tempo e resgatar saberes que sempre estiveram presentes. Ussene Isse foi perentório ao sublinhar a necessidade de “resgatar a medicina tradicional em Moçambique”. Esta não é uma mão-cheia de retórica. O processo, que será capitaneado pelo INS, visa uma incorporação real e regulada, tirando partido do papel desta entidade na gestão e geração de evidência científica em saúde.
Esta não é a primeira vez que o governante soa o alarme. Já em abril último, Isse tinha alertado para a sobrecarga brutal que o tratamento das doenças crónicas não transmissíveis impõe ao sistema de assistência médica. Na ocasião, lembrou que estas patologias, frequentemente ligadas ao consumo de álcool, ao tabagismo e a um quotidiano sedentário, geram uma “elevada pressão” nos serviços hospitalares de norte a sul do país. Uma pressão que agora se espera aliviar, também, com o auxílio de um conhecimento que vem da terra.
NR/HN/Lusa



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