Dr. Olga Madeira: “A comunicação encontra sempre um caminho”

11/08/2025
Olga Madeira, Psicóloga

Numa entrevista exclusiva ao Healthnews, a Dra. Olga Madeira, Psicóloga, desvenda estratégias práticas para compreender e conectar-se com crianças não verbais. Abordando desde a decifração de birras até à prevenção do isolamento social, partilha insights valiosos para fortalecer a ligação emocional e promover uma comunicação eficaz, sublinhando a importância do apoio multidisciplinar e do autocuidado parental.

HN – Como podem os pais “ouvir” verdadeiramente uma criança não verbal e compreender o seu mundo emocional, quando a linguagem verbal não é uma opção?

Para ouvir uma criança não verbal temos de observar atentamente o corpo: expressões faciais, gestos, tensão muscular e contacto visual. O comportamento é comunicação! A empatia, a paciência e a curiosidade genuína são essenciais.

Sugiro que os pais dediquem momentos diários apenas a observar e seguir os interesses da criança, de modo autêntico, sem interferências. Podem usar meios de comunicação aumentativa, como cartões de emoções, aplicações em tablets ou objetos de referência, para facilitar a expressão dos estados emocionais.

O fundamental é validar todas as tentativas de comunicação, por mais subtis que sejam.

Um ambiente previsível e seguro também ajuda a criança a sentir-se compreendida e emocionalmente validada.

HN – Perante uma birra, uma recusa ou um choro aparentemente inexplicável, qual é o primeiro passo que os pais devem dar para tentar decifrar a emoção ou a necessidade que a criança está a tentar comunicar?

O primeiro passo é fazer uma pausa e regular as nossas próprias emoções. Quando estamos ativados emocionalmente, é impossível interpretar corretamente os sinais da criança.

De seguida, tornem-se detetives do contexto: avaliem necessidades básicas como fome, sono ou desconforto físico. Analisem o ambiente – há demasiados estímulos? Houve alguma transição ou mudança inesperada? A maioria das “explosões inexplicáveis” tem um gatilho identificável.

Mudem a pergunta interna de “Como paro isto?” para “O que me está a tentar dizer?”. Esta mudança de atitude transforma o conflito em comunicação. Nomeiem a emoção sem tentar eliminá-la imediatamente: “Vejo que estás frustrado” cria ponte emocional e frequentemente a intensidade diminui naturalmente.

HN – Que estratégias ou ferramentas práticas podem as famílias utilizar em casa para criar um canal de comunicação eficaz e fortalecer a ligação emocional com a criança não verbal?

As famílias podem criar momentos diários de “tempo especial” onde a criança lidera e o adulto acompanha, validando as suas iniciativas. Integrem ferramentas de comunicação aumentativa no quotidiano: gestos, imagens, cartões com símbolos, dispositivos de comunicação aumentativa.

A construção de um “espaço das emoções” com um espelho, materiais sensoriais e imagens de expressões faciais pode ajudar na identificação e regulação emocional.

É fundamental sublinhar que este trabalho deve ser feito em equipa multidisciplinar – terapeutas da fala, terapeutas ocupacionais, psicólogos e agentes educativos. Cada profissional traz ferramentas específicas que, quando articuladas, potenciam verdadeiramente a comunicação da criança. A família implementa em casa, mas sempre apoiada e orientada por uma equipa multidisciplinar.

HN – Muitas vezes, a frustração de não ser compreendido pode levar a comportamentos desafiantes. Como é que os pais podem distinguir entre um comportamento que é uma forma de comunicação e um que é simplesmente disruptivo, e como devem agir em cada caso?

O ponto de partida é que todo o comportamento é comunicação. Assim, a questão não é se a criança está a tentar comunicar, mas sim o quê. A criança pode estar a mostrar frustração, cansaço, necessidade de atenção ou vontade de controlar o que a rodeia.

Os pais devem observar o comportamento e a sua função: quando ocorre? O que acontece antes e depois? O padrão ajuda a revelar a sua função.

A resposta eficaz tem três passos: garantir a segurança de todos; validar a emoção sem aceitar o comportamento (“entendo que estás com raiva, mas não podes partir as coisas”); e ensinar alternativas mais funcionais para comunicar essa mesma necessidade.

A consistência é a palavra-chave. Se oferecermos formas mais eficazes de comunicar o que precisa – através de gestos, imagens, sons ou dispositivos específicos – os comportamentos desafiantes naturalmente diminuem porque deixam de ser necessários.

HN – O risco de isolamento social ou de bullying na escola é uma grande preocupação para os pais. De que forma podem eles trabalhar em conjunto com a escola para garantir que a criança se sente segura, compreendida e incluída no ambiente escolar?

A parceria escola-família deve ser proativa, não reativa. Os pais devem reunir regularmente com os agentes educativos para partilhar como a criança comunica, os seus interesses e estratégias eficazes.

É fundamental formalizar os apoios com a legislação em vigor, assim como incluir os sistemas de comunicação aumentativa na sala, pausas sensoriais e apoio de pares. A equipa multidisciplinar que acompanha a criança deve articular diretamente com a escola, fornecendo orientações específicas.

Recomendo sessões de sensibilização na turma, adaptadas à idade, onde se explique que existem diferentes formas de comunicar. As crianças são naturalmente inclusivas quando compreendem e têm ferramentas para interagir.

É importante que se estabeleçam canais de comunicação casa-escola para identificar problemas precocemente. Quando a família, escola e técnicos trabalham verdadeiramente em rede, a criança sente-se acolhida e integrada, o que fortalece o seu bem-estar e diminui o risco de exclusão ou bullying.

HN – Esta jornada pode ser emocionalmente desgastante para os próprios pais. Que conselhos tem para que eles também cuidem da sua saúde mental, evitando o desgaste e a frustração, enquanto apoiam o desenvolvimento dos seus filhos?

Cuidar de si não é egoísmo, é fundamental. Os pais não conseguem apoiar os filhos se estiverem esgotados. Recomendo pausas regulares, mesmo que breves, e aceitar ajuda – família, amigos ou serviços especializados.

Preservar os espaços próprios: a relação de casal, as amizades, os interesses pessoais. Estes não são luxos, são a reserva emocional. O isolamento só amplifica o cansaço.

É também importante considerar o acompanhamento psicológico individual para processar emoções complexas – a culpa, a frustração, o luto por expectativas diferentes. Fazer parte de um grupo de pais oferece compreensão genuína e partilha de estratégias práticas que fazem diferença no dia-a-dia.

Outra estratégia é a prática da autocompaixão. Haverá dias difíceis, momentos de impaciência, erros. Faz parte de ser humano. Celebrem os pequenos progressos, quer os vossos, quer os dos vossos filhos. O objetivo não é a perfeição, é estar presente com consistência e amor. Isso já é extraordinário, mesmo quando não parece.

HN – A terminar, e com base na sua vasta experiência clínica, que mensagem de esperança e encorajamento gostaria de deixar aos pais que se sentem, por vezes, perdidos na missão de compreender os seus filhos não verbais?

Depois de tantos anos nesta área, posso garantir-vos: a comunicação encontra sempre um caminho. Pode ser diferente do que imaginaram, mas encontra. E quando isso acontece, é transformador.

Tenho visto crianças que pareciam fechadas ao mundo desenvolverem formas de se expressarem. Vi pais perdidos tornarem-se os maiores especialistas dos seus filhos. A capacidade de adaptação das crianças e das famílias continua a surpreender-me todos os dias.

Com tempo, paciência e apoio, os pais tornam-se verdadeiros “tradutores” do mundo emocional da criança, e essa ligação é profundamente transformadora. Acreditem que o vínculo que estão a construir — feito de olhares, gestos e afetos — é uma forma poderosa de amor e de comunicação.

Confiem no vosso conhecimento único sobre o vosso filho. Apoiem-se nos profissionais, mas honrem também a vossa intuição. Não estão sozinhos nesta jornada — há uma rede inteira ao vosso lado.

HN/MMM

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