INSA assume coordenação nacional da rede de vigilância a vetores

8 de Novembro 2025

Portugal dispõe agora de uma estrutura formalizada para monitorizar e responder a ameaças de doenças transmitidas por mosquitos e carraças. No dia do seu 126.º aniversário, o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge viu reforçadas as suas atribuições, passando a coordenar oficialmente a Revive. O presidente Fernando Almeida garante que o país está preparado para agir perante eventuais emergências, citando a experiência de outros países do sul da Europa onde já se registam casos autóctones

Portugal está preparado para responder a eventuais emergências causadas por doenças transmitidas por mosquitos e carraças, afirmou esta sexta-feira o presidente do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. A declaração de Fernando Almeida surge no mesmo dia em que a instituição celebra 126 anos e em que foi formalmente investido na coordenação nacional da Rede de Vigilância de Vetores, conhecida por Revive.

Através de um despacho da secretária de Estado da Saúde, o INSA, que já assegurava informalmente esta tarefa, vê agora o seu papel oficializado. “Este despacho permite-nos reforçar ainda mais [a vigilância] e estamos na linha da frente da preparação para aquilo que vier”, afirmou Fernando Almeida à agência Lusa, realçando que a rede integra cerca de 350 profissionais espalhados pelo território. Técnicos de saúde ambiental, médicos de saúde pública e unidades locais de saúde constituem a espinha dorsal desta estrutura, dedicando-se a um trabalho minucioso de pesquisa e recolha de mosquitos e carraças.

A necessidade de uma vigilância apertada é acentuada pela presença estabelecida do mosquito Aedes albopictus em quase todo o país, um vetor capaz de transmitir vírus como Zika, Dengue e Chikungunya. O responsável não esconde que a situação obriga a uma responsabilidade acrescida. “Portanto, há aqui uma responsabilidade acrescida que nos permite, em articulação com as ULS, com as delegações de saúde regionais, a Direção-Geral da Saúde e com outras instituições congéneres, robustecer e não estarmos à espera de sermos reativos”, salientou.

Neste momento, vincou, o país reúne condições para uma resposta eficaz e operacional, fruto da articulação entre várias entidades do sistema de saúde pública. Almeida lembrou que na Europa do Sul, incluindo Itália, França e Espanha, já se confirmaram casos autóctones de tais doenças. Em Portugal, até à data, apenas foram identificados casos importados, um cenário que deixa os especialistas “tranquilos, mas atentos”. “Não podemos impedir que estas situações ocorram — basta lembrar a Covid —, mas o que queremos é, se ocorrer, garantir que está tudo preparado para uma resposta eficaz, e perfeitamente operacional”, acrescentou.

A formalização da coordenação da Revive enquadra-se nas comemorações do 126.º aniversário do INSA, data que o seu presidente entende como uma oportunidade para consolidar a instituição como referência e avançar com a modernização da sua lei orgânica e estatutos, que se mantêm há 13 anos. Fernando Almeida acredita que esta atualização permitirá enfrentar os desafios futuros com mais eficácia e prontidão, adaptando o instituto “aos tempos modernos da ciência”.

Entre os projetos em curso, ganha relevo a Estratégia do Milhão de Genomas, uma iniciativa totalmente inovadora a nível europeu que o INSA ambiciona implementar já em 2026. Foi também referido o teste pré-natal não invasivo, recentemente incluído no catálogo do Serviço Nacional de Saúde, que permite detetar malformações fetais através de uma amostra de sangue periférico. Em paralelo, decorre um estudo sobre imunodeficiência combinada grave, com o objetivo final de a incluir no programa de rastreio neonatal, seguindo uma recomendação da Assembleia da República.

O presidente do INSA não deixou de sublinhar o reforço da cooperação com os países africanos de língua portuguesa, nem a contínua modernização de infraestruturas e equipamentos, um esforço suportado financeiramente pelo Plano de Recuperação e Resiliência.NR/HN/Lusa

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