Rastreio de diabetes tipo 1 revela casos silenciosos em crianças sem histórico familiar

8 de Novembro 2025

Um projeto pioneiro em Portugal, inserido no EDENT1FI, rastreou 10.000 crianças e detetou que uma em cada 300 desenvolve diabetes tipo 1 de forma assintomática. Três em cada quatro casos identificados não tinham antecedentes conhecidos da doença, desafiando a noção de que é meramente hereditária.

Um rastreio nacional inédito, integrado no projeto europeu EDENT1FI e conduzido pela Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP), veio alterar profundamente a compreensão sobre o aparecimento da diabetes tipo 1 na população pediátrica. A campanha “O seu filho tem um dedo que adivinha” testou 10.000 crianças e adolescentes entre os 3 e os 17 anos em pouco mais de um ano, através de uma simples picada no dedo. Os resultados apontam para uma prevalência de 0,33% de diabetes tipo 1 em estadio pré-clínico, ou seja, uma em cada 300 crianças avaliadas já tinha a doença em desenvolvimento, sem qualquer sinal exterior.

Mas talvez o dado mais surpreendente seja outro: 75% das crianças identificadas nesta fase inicial – caracterizada pela presença de pelo menos dois autoanticorpos específicos – não possuíam qualquer histórico familiar de diabetes tipo 1. Esta constatação põe em causa a perceção generalizada de que a doença surge maioritariamente em contextos de hereditariedade direta.

“Estes resultados marcam uma mudança de paradigma na forma como abordamos a diabetes tipo 1”, confirma João Raposo, diretor clínico da APDP. “Desafiam a perceção comum de que a DT1 é uma doença primariamente hereditária e inevitável. Pela primeira vez, em larga escala em Portugal, conseguimos identificar crianças nos estadios muito iniciais da doença, muito antes de apresentarem sintomas. Esta ‘janela de oportunidade’ é crítica”, sublinha.

Raquel Coelho, pediatra e coordenadora médica do Departamento de Crianças e Jovens da APDP, reforça a importância prática desta descoberta. “Sabemos que a maioria dos casos surge de forma esporádica. Um rastreio populacional permite-nos identificar estas crianças, anos antes dos primeiros sintomas e, mais importante, antes de complicações graves, e potencialmente fatais, que infelizmente ainda marcam o diagnóstico de muitas crianças.”

A identificação precoce permite um acompanhamento totalmente diferente. As 30 crianças diagnosticadas neste contexto foram integradas no programa “EDENT1FI FOLLOW”, que assegura uma vigilância clínica apertada, adaptada ao seu perfil de risco, educação terapêutica contínua e apoio psicossocial. O objetivo é claro: atenuar o impacto do diagnóstico, evitar crises agudas perigosas e preparar a criança e a família para uma convivência mais segura e informada com a doença crónica.

A iniciativa superou a meta inicial de dez mil testes, prevista para quatro anos, em apenas catorze meses de atividade, percorrendo escolas, eventos, centros de saúde e hospitais. O EDENT1FI é uma colaboração europeia de larga escala, financiada por múltiplas entidades, incluindo a União Europeia.

PR/HN

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