Rafaela Rosário: “A literacia em saúde organizacional pode ser muito relevante para promover a saúde em crianças”

9 de Novembro 2025

No II Encontro de Literacia em Saúde em Viana do Castelo, a investigadora Rafaela Rosário apresentou os resultados de um estudo pioneiro desenvolvido em escolas TEIP - Territórios Educativos de Intervenção Prioritária, instituições localizadas em contextos socioeconomicamente vulneráveis que recebem apoio específico do governo para combater o insucesso escolar e a exclusão social. A investigação demonstrou como uma abordagem organizacional, envolvendo professores, famílias e a própria comunidade escolar, conseguiu reverter indicadores de obesidade infantil e melhorar hábitos de saúde através de intervenções estruturadas nestes contextos desfavorecidos

No II Encontro de Literacia em Saúde, que decorre em Viana do Castelo, a professora Rafaela Rosário defendeu que a promoção da saúde deve ser uma responsabilidade das organizações, e não apenas uma tarefa individual. A investigadora da Universidade do Minho apresentou dados concretos de um projeto de intervenção em escolas que demonstram ser possível melhorar indicadores de saúde infantil através de uma abordagem sistémica.

A literacia em saúde organizacional, conceito central da sua apresentação, foi descrita como a capacidade das instituições – como escolas ou autárquicas – criarem condições para que as pessoas possam aceder, compreender e utilizar a informação sobre saúde. “O indivíduo está envolvido em vários sistemas”, explicou Rosário, “e é a este nível que emerge o conceito de literacia em saúde organizacional”.

O projeto Bisco, desenvolvido em Territórios Educativos de Intervenção Prioritária, serviu de caso prático. A intervenção foi codesenhada com a participação ativa de crianças, famílias, professores e outros agentes educativos. Pela primeira vez no seu grupo de investigação, foram realizados grupos focais com crianças entre os 6 e os 10 anos. “O mapeamento daquilo que circulava no ambiente digital também contribuiu para a construção do programa final”, acrescentou.

A intervenção estruturou-se em dois eixos: formação contínua de professores e desafios quinzenais para as famílias, mediados pelos docentes. O programa utilizou a figura de uma abelha como elemento aglutinador, representando a polinização do conhecimento em saúde.

Os resultados, ainda que preliminares, mostram alterações positivas. Rosário referiu que o programa esteve “significativamente associado à redução do índice de massa corporal”, particularmente nas crianças que já apresentavam excesso de peso. Registou-se ainda um aumento do consumo de produtos hortícolas, uma redução de alimentos ultraprocessados e, mais recentemente, uma diminuição de 27 minutos no comportamento sedentário diário.

A investigadora não ignorou as dificuldades. Reconheceu que, “ao nível dos professores, são necessárias maiores competências, maiores conhecimentos relacionados com a saúde numa perspetiva global”, sublinhando a importância da formação contínua.

Perante a constatação de que 38% das crianças com 6 anos já têm excesso de peso ou obesidade, a equipa está agora a desenvolver o projeto Social Heroes, dirigido a jardins-de-infância. Mantém a mesma metodologia de cocriação, mas intervindo numa fase ainda mais precoce.

A apresentação encerrou com um apelo à implementação de políticas estruturais que possam levar estas experiências para outros contextos. A mensagem final foi clara: a mudança é possível, mas exige o envolvimento de todos os setores da comunidade.

HN/AL/MMM

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