Gustavo Tato Borges destaca a importância de criar condições para aplicar a literacia em saúde

11 de Novembro 2025

No II Encontro da Rede Académica de Literacia em Saúde, que decorreu a 6 e 7 de novembro em Viana do Castelo, Gustavo Borges, da Direção-Geral da Saúde, defendeu que a literacia em saúde exige mais do que transmitir conhecimentos: é crucial criar condições reais para que as pessoas os possam aplicar no seu dia a dia.

A intervenção de Gustavo Borges, médico e atual delegado de saúde regional do Norte, pautou-se por uma visão ampla e socialmente contextualizada do que significa, de facto, promover a literacia em saúde. Afastando-se de uma perspetiva meramente instrutiva, Borges lançou um desafio frontal aos presentes: de que serve incutir conhecimento se o ambiente envolvente não permitir a sua materialização?

“Nós podemos dar as ferramentas para [as pessoas] aprenderem competências”, admitiu, “mas nós temos que olhar para a sociedade como um todo”. E questionou: “É impossível nós agora dizermos que é fácil alguém poder ter literacia em saúde quando não sai com dinheiro chegando ao fim do mês, quando não sabe que tempo tem disponível para estar junto dos seus filhos, quando precisa de praticar algum tipo de desporto mas as infraestruturas que tem disponíveis não permitem”.

A sua abordagem centrou-se na necessidade urgente de criar ambientes que facilitem escolhas saudáveis, um trabalho que, na sua opinião, transcende em muito a esfera individual ou mesmo a dos cuidados de saúde. “A sociedade é lá fora”, lembrou, defendendo que o caminho para uma literacia eficaz passa por uma ação concertada a nível comunitário e político.

Como exemplos concretos, referiu iniciativas como a criação de “super bairros” ou o conceito de “cidade de 15 minutos”, que privilegiam o peão e o espaço público, ou a atribuição de um “cheque desportivo” por autarquias para eliminar barreiras económicas no acesso a atividades. A criação de corredores seguros para que as crianças possam ir a pé ou de bicicleta para a escola foi outro dos cenários que pintou, contrastando com a realidade comum de os pais terem de as levar “à porta da sala” por questões de segurança.

O delegado de saúde regional não ignorou a complexidade do mundo real, onde as tentações são uma constante. “Eu posso muito bem dizer a um aluno: a ementa deste dia é 100% vegetariana e muito bem. Mas ele a seguir tem a opção de sair da escola e ir à esquina e comer um hambúrguer”, ilustrou, sublinhando a fragilidade de uma estratégia puramente educativa quando desinserida do contexto. O mesmo se aplica, notou, aos novos consumos de nicotina através de cigarros eletrónicos, que surgem como novas tentações após sucessos na redução do tabagismo tradicional.

Para fazer face a estes desafios, Borges é perentório: “Temos que ter políticas públicas de saúde, financeiras, obviamente, território de integração social que abranjam isto tudo”. E alertou para a necessidade de uma literacia organizacional, criticando a forma como a informação é disponibilizada pelos serviços. “Vejam os sites das nossas instituições. Muitas vezes não conseguimos encontrar o que queremos. Como é que um cidadão que não é da área da saúde vai encontrar o que precisa?”

A cocriação com os cidadãos foi apontada como um pilar fundamental. “Ouvir o cidadão, ouvir quem representa os cidadãos para trabalharmos para essas necessidades. Quando nos envolvemos nisto, vamos ter melhores resultados”. Esta teia de fatores – desde o urbanismo à política económica, passando pela comunicação clara e a participação cívica – é, no seu entender, o único caminho para uma literacia em saúde com impacto real. O objetivo final, concluiu, é uma sociedade onde “todos podem atingir o seu potencial de saúde” e onde, idealmente, as pessoas “precisem menos do serviço de saúde porque estão mais autónomas e sabem exatamente o que fazer”.

HN/AL/MMM

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