IGAS aponta desvios em incentivos cirúrgicos no Hospital de Santa Maria com denúncia ao Ministério Público

11 de Novembro 2025

A Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) concluiu que um dermatologista do Hospital de Santa Maria recebeu indevidamente mais de 700 mil euros em incentivos para cirurgias adicionais, algumas de natureza oncológica, e enviou o relatório ao Ministério Público. 

O médico, identificado como Miguel Alpalhão, terá marcado consultas para os seus pais sem referência prévia, elaborado propostas cirúrgicas e realizado as intervenções, segundo o relatório divulgado.

O processo de investigação revelou que, entre 2021 e o primeiro trimestre de 2025, as propostas cirúrgicas não foram registadas no Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia (SIGIC) no momento das consultas, sendo apenas registadas em papel, o que adulterava a lista de espera e a antiguidade dos pacientes. Miguel Alpalhão emitiu e aprovou 450 propostas cirúrgicas e codificou o mesmo ato em 356 episódios, uma prática proibida pelo Conselho de Administração em agosto de 2024.

O médico recebeu um total de 714.176,42 euros pela atividade cirúrgica realizada em produção adicional, fora do horário normal de trabalho, incluindo dias de descanso e feriados. Embora os atos clínicos tenham sido efetivamente realizados, a IGAS concluiu que estes procedimentos não podiam ser remunerados através do SIGIC, devendo ter sido pagos como trabalho suplementar. Foi ainda detetada a atribuição indevida do incentivo de malignidade em 19,7% das cirurgias analisadas do médico e em 33,3% no serviço de Dermatologia.

Além disso, foram identificadas codificações indevidas de diagnósticos adicionais de comorbilidade que elevaram o nível de severidade para casos que não justificavam tal classificação, como pequenas cirurgias sem sedação ou monitorização anestésica. A IGAS apontou também para a ausência de registos biométricos de entrada e saída nos sistemas de controlo de assiduidade, obrigatórios para a produção adicional e respetivo pagamento, indicando falhas nos mecanismos de controlo interno da cirurgia de ambulatório no Hospital Santa Maria.

O Conselho de Administração do hospital tinha sido alertado em 2022 para desvios na produção cirúrgica adicional, mas não foram tomadas medidas relativas à atividade deste médico. Só em julho de 2024, após identificação dos valores elevados pagos, foi questionado o Serviço de Gestão de Recursos Humanos, que considerou a situação legal. Em novembro de 2024, o Conselho decidiu restringir as cirurgias em produção adicional a situações oncológicas e reduzir o valor pago às equipas cirúrgicas.

O processo de inquérito continua para apurar a eventual responsabilidade financeira dos envolvidos e a diferença exata entre os montantes pagos indevidamente e os que deveriam ter sido atribuídos pela atividade realizada. O relatório foi enviado ainda para o gabinete da Ministra da Saúde, o Conselho de Administração de Santa Maria, o médico visado e o Conselho Diretivo da Administração Central do Sistema de Saúde

lusa/HN

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