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A intervenção surgiu num contexto particularmente sensível, numa escola de Viana do Castelo onde se cruzam realidades socioeconómicas frágeis e uma notória diversidade cultural. A turma era composta por sete alunos – portugueses, brasileiros e um jovem de nacionalidade não especificada –, num cenário marcado por limitações económicas, dificuldades de mobilidade e um acesso restrito a recursos. Daniel Gonçalves, representando o Município de Viana do Castelo em colaboração com a psicóloga Mariana Pombal, descreveu um projeto que procurou responder a estas fragilidades através de uma abordagem pouco convencional: a arte dramática como veículo de promoção da saúde psicológica.
O objetivo central passava por desenvolver competências de autorregulação emocional, autoestima e comunicação, trabalhando paralelamente o reconhecimento de emoções e a capacidade de as partilhar de forma adaptativa. Percebeu-se desde cedo que muitos dos alunos utilizavam estratégias enviesadas para gerir conflitos ou frustrações, algo que o projeto tentou reorientar. A ideia era que o teatro funcionasse como uma zona segura, um palco simbólico onde emoções pudessem ser experimentadas e compreendidas sem julgamento.
Ao longo de sete meses, realizaram-se sessões mensais com dinâmicas de role-play, improvisação e exercícios de expressão corporal, sempre adaptados ao grupo e ao seu ritmo. A sala de aula foi transformada – sem carteiras, sem mesas –, criando um ambiente de liberdade que contrastava com a rigidez do quotidiano escolar. A professora de teatro, envolvida de forma articulada, deu continuidade ao trabalho nas suas aulas, encaminhando os alunos para a criação de uma peça final que sintetizasse o percurso realizado.
Houve, contudo, obstáculos. A avaliação inicial do bem-estar subjetivo dos alunos, feita através de uma escala multidimensional de satisfação de vida, revelou níveis muito baixos de autoestima. No final, a reavaliação mostrou uma evolução pontual, mas pouco significativa. Gonçalves admitiu que o tempo foi insuficiente para alterar comportamentos de forma consistente. A intervenção esbarrou ainda em fatores externos: problemas familiares e sociais levaram ao afastamento de alguns alunos, e a apresentação pública inicialmente planeada não chegou a acontecer.
Ainda assim, houve ganhos. Em momentos de tensão no final do ano letivo, o grupo recorreu a algumas das estratégias trabalhadas nas sessões para gerir conflitos. A peça que preparavam, intitulada “A Caixa”, funcionava como metáfora de um sentimento contido – algo que os alunos aprenderam a “desmontar” em cena. Daniel Gonçalves confessou que, sem o registo visual, é difícil transmitir a intensidade desses momentos. As imagens captadas, com o devido consentimento das famílias, não puderam ser partilhadas publicamente, mas testemunhavam pequenas conquistas no plano emocional.
O balanço final é ambíguo. Ficou claro que sete sessões não bastam para transformar realidades complexas. No entanto, a experiência mostrou que o teatro pode ser uma ferramenta acessível e versátil para trabalhar competências psicológicas em contexto escolar, sem exigir investimentos avultados. Tão importante quanto o que se fez foi o que ficou por fazer: a necessidade de dar continuidade a este tipo de intervenções, alargando-as a outras turmas e, quem sabe no futuro, envolvendo também as famílias.
Para o próximo ano letivo, está já prevista uma nova edição do projeto, desta vez com outra turma de sexto ano. Daniel Gonçalves espera aplicar as aprendizagens retiradas desta primeira experiência, reforçando a componente emocional e ajustando a metodologia. Numa altura em que se fala cada vez mais de literacia em saúde, o “Dramaticamente” lembra que, por vezes, a melhor forma de chegar à mente é passar pelas emoções – e o palco pode ser um bom ponto de partida.
HN/AL/MMM



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