II Conferência RALS: Inês Morais Vilaça defende que “os projetos não são nossos” e apela a esforços conjuntos

11 de Novembro 2025

No segundo dia da II Conferência de Literacia em Saúde, organizada pela Rede Académica de Literacia em Saúde (RALS) em Viana do Castelo, Inês Morais Vilaça, da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, sublinhou a necessidade de unir sinergias e evitar repetições, defendendo que a sustentabilidade dos projetos passa pela sua capacidade de replicação.

A intervenção de Inês Morais Vilaça, em representação da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, trouxe para a mesa do II Encontro da RALS uma perspetiva pragmática sobre o trabalho em literacia. Perante uma plateia composta por profissionais de saúde, autarquias, escolas e academia, a oradora começou por notar o valor de ter “tantos ambientes diferentes” a congregarem-se em torno de um objetivo comum. Mas foi ao olhar para o futuro que a sua mensagem ganhou um contorno mais urgente.

“Se calhar podemos unir esforços”, propôs, lançando o desafio que marcou a sua passagem pelo painel. A médica de saúde pública alertou para o risco de se andar “a trabalhar as mesmas áreas” de forma descoordenada, defendendo que as intervenções devem contribuir para responder ao “problema principal da comunidade onde trabalhamos”. A ideia de um trabalho em silos, repetitivo e sobreposto, pareceu-lhe um contra-senso. A solução, sugeriu, poderá passar pelos planos gerais de saúde, ferramentas das unidades de saúde pública que priorizam áreas de intervenção e que podem servir de bússola para uma atuação mais concertada.

Foi neste contexto que proferiu uma das afirmações mais marcantes da sua alocução, uma ideia que toca não só a eficácia, mas também a humildade na abordagem à literacia. “Nós às vezes ficamos agarradíssimos aos nossos projetos porque achamos que são os nossos. E os projetos não são nossos. Os projetos têm umas práticas que são para replicar”, afirmou. Esta visão coloca o foco não na autoria ou no protagonismo institucional, mas no potencial de transformação que uma boa prática pode ter quando é partilhada e apropriada por outros. A verdadeira sustentabilidade, parecia querer dizer, não está na perpetuação de um nome ou de uma sigla, mas na capacidade de uma ideia se libertar dos seus criadores originais e ganhar vida própria noutros contextos.

A oradora encontrou um exemplo concreto nas apresentações que antecederam a sua intervenção, manifestando particular satisfação por ouvir um testemunho sobre um projeto que se manteve após a saída dos seus impulsionadores. “Acho que isto é uma das coisas muitíssimo importantes”, comentou, salientando que “transferir as competências para que eles continuem a funcionar quando nós vamos embora” é, no fundo, a razão de ser do trabalho em saúde pública. É para isso que se trabalha, rematou, num registo que misturava a fria lógica da gestão com uma clara convicção missionária.

A sua intervenção entroncava-se ainda no que havia sido dito por Gustavo Borges, outro elemento do painel, sobre a necessidade de criar condições para que o conhecimento se traduza em comportamentos. Inês Vilaça concordou, lembrando a impotência de se pedir a alguém que faça atividade física sem que existam locais ou espaços verdes para o fazer. “Trabalhar em conjunto também com as pessoas, as políticas, para fazer acontecer”, concluiu, fechando o círculo da sua argumentação: a literacia não é um fim em si mesma, mas um meio que só se concretiza com políticas públicas adequadas e uma colaboração efetiva entre todos os setores. O seu apelo final foi, assim, um chamamento à ação conjunta, menos centrada no ego projetual e mais focada nas necessidades reais das populações.

HN/AL/MMM

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