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A intervenção de Inês Morais Vilaça, em representação da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, trouxe para a mesa do II Encontro da RALS uma perspetiva pragmática sobre o trabalho em literacia. Perante uma plateia composta por profissionais de saúde, autarquias, escolas e academia, a oradora começou por notar o valor de ter “tantos ambientes diferentes” a congregarem-se em torno de um objetivo comum. Mas foi ao olhar para o futuro que a sua mensagem ganhou um contorno mais urgente.
“Se calhar podemos unir esforços”, propôs, lançando o desafio que marcou a sua passagem pelo painel. A médica de saúde pública alertou para o risco de se andar “a trabalhar as mesmas áreas” de forma descoordenada, defendendo que as intervenções devem contribuir para responder ao “problema principal da comunidade onde trabalhamos”. A ideia de um trabalho em silos, repetitivo e sobreposto, pareceu-lhe um contra-senso. A solução, sugeriu, poderá passar pelos planos gerais de saúde, ferramentas das unidades de saúde pública que priorizam áreas de intervenção e que podem servir de bússola para uma atuação mais concertada.
Foi neste contexto que proferiu uma das afirmações mais marcantes da sua alocução, uma ideia que toca não só a eficácia, mas também a humildade na abordagem à literacia. “Nós às vezes ficamos agarradíssimos aos nossos projetos porque achamos que são os nossos. E os projetos não são nossos. Os projetos têm umas práticas que são para replicar”, afirmou. Esta visão coloca o foco não na autoria ou no protagonismo institucional, mas no potencial de transformação que uma boa prática pode ter quando é partilhada e apropriada por outros. A verdadeira sustentabilidade, parecia querer dizer, não está na perpetuação de um nome ou de uma sigla, mas na capacidade de uma ideia se libertar dos seus criadores originais e ganhar vida própria noutros contextos.
A oradora encontrou um exemplo concreto nas apresentações que antecederam a sua intervenção, manifestando particular satisfação por ouvir um testemunho sobre um projeto que se manteve após a saída dos seus impulsionadores. “Acho que isto é uma das coisas muitíssimo importantes”, comentou, salientando que “transferir as competências para que eles continuem a funcionar quando nós vamos embora” é, no fundo, a razão de ser do trabalho em saúde pública. É para isso que se trabalha, rematou, num registo que misturava a fria lógica da gestão com uma clara convicção missionária.
A sua intervenção entroncava-se ainda no que havia sido dito por Gustavo Borges, outro elemento do painel, sobre a necessidade de criar condições para que o conhecimento se traduza em comportamentos. Inês Vilaça concordou, lembrando a impotência de se pedir a alguém que faça atividade física sem que existam locais ou espaços verdes para o fazer. “Trabalhar em conjunto também com as pessoas, as políticas, para fazer acontecer”, concluiu, fechando o círculo da sua argumentação: a literacia não é um fim em si mesma, mas um meio que só se concretiza com políticas públicas adequadas e uma colaboração efetiva entre todos os setores. O seu apelo final foi, assim, um chamamento à ação conjunta, menos centrada no ego projetual e mais focada nas necessidades reais das populações.
HN/AL/MMM



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