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No passado fim de semana, Viana do Castelo acolheu o II Encontro de Literacia em Saúde, uma iniciativa da Rede Académica de Literacia em Saúde (RALS). No painel dedicado a “Ambientes Promotores de Literacia em Saúde”, Rayana Marcela Oliveira, nutricionista brasileira licenciada pela Universidade Federal da Paraíba e atualmente a trabalhar no Município de Sabrosa com o projeto Super S(énior), trouxe para a discussão uma visão prática e alargada do que significa “alimentar” as novas gerações. A oradora não se ficou por conceitos nutricionais estanques. “Nós falamos muito em literacia nutricional, só que eu gosto mais de literacia alimentar”, começou por afirmar, sublinhando que esta abrange não só os nutrientes, mas também as competências práticas, o impacto ambiental e até a dimensão cultural daquilo que comemos.
Perante uma plateia de académicos e profissionais de saúde, Rayana Marcela descreveu o trabalho de uma autarquia como a de Sabrosa como um esforço constante para “trabalhar na imprensa e alimentar” os projetos educativos locais, numa expressão que capta a natureza por vezes artesanal desta intervenção. Sem competências formais no currículo escolar, o município actua através de alavancas como o fornecimento de refeições e a formação do pessoal não docente. “Uma pessoa sente que é de responsabilidade da autarquia a gestão desse pessoal”, notou, referindo-se aos auxiliares de educação, cuja capacitação é crucial para transmitirem conhecimentos consistentes aos alunos.
A ementa única, elaborada pela nutricionista para os refeitórios do concelho, desde o jardim-de-infância ao secundário, serve de base a um trabalho mais vasto. É um instrumento, diz, para “facilitar a criação de hábitos alimentares saudáveis”. Mas o mais interessante talvez sejam os desvios a esta norma. A palestrante contou como, a pedido das escolas, se elaboram ementas específicas para semanas temáticas – da Europa, da Interculturalidade –, sempre com o cuidado de utilizar os alimentos permitidos no contexto escolar. Estes momentos, explicou, acabam por ser uma forma de trabalhar o respeito pela diversidade alimentar e a integração de imigrantes, num exemplo de como a alimentação pode ser uma plataforma de inclusão.
Rayana Marcela não escondeu que, sendo a única nutricionista da sua Câmara Municipal, tem de dosear bem a sua intervenção. “Há às vezes é difícil desenvolver e acompanhar um projeto muito, muito complexo”, admitiu. A solução encontrada foi o “Desafio”, um programa que vai no quarto ano e que procura envolver os professores na promoção de uma alimentação saudável e sustentável, sem sobrecarregar a estrutura municipal. São três os eixos: aumentar o consumo de alimentos de origem vegetal, com um dia mensal de refeição 100% vegetal; promover lanches com fruta da época e hortícolas; e reduzir o desperdício alimentar. Este último, contou com um tom de ligeira frustração, é o que tem tido menor adesão espontânea. “É com muita tristeza que eu digo que é o primeiro ano que nós vamos ter escolas inscritas por livre espontânea vontade nesse desafio”, confessou.
A estratégia passa por fornecer materiais e sugestões de actividades aos professores, que depois as adaptam. Há uma negociação constante. Os dias para trazer fruta ou hortícolas para o lanche podem mudar, as ementas vegetarianas são discutidas previamente. Por vezes, há resistência por parte dos encarregados de educação, que “não querem que os filhos consumam uma refeição 100% vegetariana”. Para isso, a autarquia produz informação e organiza formações em culinária vegetariana para o pessoal dos refeitórios.
A intervenção não se esgota dentro das escolas. Rayana Marcela mostrou como outras divisões da câmara se vão entrelaçando. Falou de projetos que transformam resíduos dos refeitórios em composto para hortas escolares. A sua equipa é depois chamada para sessões práticas sobre como cozinhar os produtos colhidos nessas hortas. Noutra iniciativa, ligada à cultura local, chegaram a usar algas na sopa do refeitório. “Utilizamos realmente as algas… e as crianças deram provar sopa com algas”, contou, num exemplo de como se tentam quebrar barreiras.
O tom da apresentação foi o de quem constrói caminhos com os recursos que tem, num trabalho de persistência e de tentativa. Sem grandes floreados, Rayana Marcela deixou claro que o objectivo é criar coerência entre o que se aprende na sala de aula e o que se pratica no refeitório. “É a maneira que nós temos de transmitir na prática o que é uma alimentação saudável”, rematou. No final, o moderador do painel elogiou o trabalho apresentado. Mas a sensação que ficou é que o trabalho, como uma boa refeição, está sempre a meio do seu curso.
HN/AL/MMM



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