Lucília Nunes na II Conferência da RALS: “A linguagem técnica é uma conspiração contra os leigos”

11 de Novembro 2025

No II Encontro da Rede Académica de Literacia em Saúde, em Viana do Castelo, Lucília Nunes, do Instituto Politécnico de Setúbal ,questionou as certezas sobre autonomia do doente. “Quem é que disse que as pessoas precisavam de ser mais autónomas?”, provocou, ligando a literacia a uma questão de dignidade humana que ultrapassa a mera adesão a tratamentos

A apresentação podia ter arrancado com os conceitos base, no entanto, Lucília Nunes, preferiu começar por uma ideia que a persegue: a da linguagem técnica como “conspiração contra os leigos”. Foi essa a abertura para uma conferência que, no fim de semana passado, no II Encontro da Rede Académica de Literacia em Saúde (RALS), tentou desembaraçar o novelo ético que se esconde por trás da forma como as pessoas acedem — ou não — à informação em saúde.

Perante uma plateia de profissionais de várias áreas, Nunes não usou slides. Trouxe um livro e um “esquemazinho”, como lhe chamou, mas foi sobretudo com um discurso entrecortado por pausas e pequenas divagações que construiu o seu argumento. A literacia em saúde, definiu, não é só saber ler um folheto. São as “competências ou habilidades para aceder, compreender, avaliar e aplicar informação de saúde”. E é aqui que a coisa se complica, porque esta não é uma questão técnica, mas profundamente humana e, por isso, ética.

A oradora recorreu a três estudos — de 2004, 2013 e 2024 — para mostrar como os problemas se repetem. Em 2004, falava-se da “natureza silenciosa do problema”: os profissionais partem do princípio de que os doentes perceberam, os doentes têm vergonha de admitir que não perceberam. Daí à incomunicabilidade e a potenciais danos foi um passo. Mais tarde, em 2013, a conversa evoluiu para a “perda da autonomia” e para as desigualdades no acesso. Já em 2024, os estudos relacionavam a baixa literacia com piores resultados em saúde, problemas no consentimento informado e até com a qualidade de vida.

“Emergem destes estudos algumas ideias simples”, resumiu Nunes. “A perda da autonomia, as desigualdades no acesso, a justiça na distribuição de recursos.” E é aqui que a coisa deixa de ser apenas académica para se tornar incómoda, afirmou.

Lucília Nunes socorreu-se do conhecido modelo de Beauchamp e Childress — os tais quatro princípios da bioética — mas fez uma ressalva: “Nunca mais digam ‘princípio da autonomia’”. O correto, insistiu, é “respeito pela autonomia”. A diferença não é semântica. Se fosse um princípio, a autonomia seria uma qualidade inerente a todos, o que não é verdade. “O que está em causa é o respeito pela autonomia do outro, pela sua dignidade e pelo seu potencial de desenvolvimento.” E isto, sublinhou, depende de condições sociais, económicas e políticas. “Não podemos culpar a vítima.”

Foi um dos momentos mais incisivos da sua intervenção. A ideia de que se pode, sem querer, cair na “culpabilização da vítima” — atribuir ao doente a responsabilidade de não seguir tratamentos, ignorando as barreiras que enfrenta — pairou sobre a sala. E levou-a a uma digressão sobre um ensaio da Fundação Gulbenkian que narra a história de dois homens com a mesma doença e percursos completamente diferentes, condenados não pela patologia, mas pelo seu nível de informação e rede de suporte.

“Às vezes atiramos balas de informação para cima das pessoas, como guias, folhetos, sites… e não resulta. As pessoas ficam assoberbadas e não escolhem nada”, observou. “O filósofo diz que as pessoas não tomam decisões com base em números. Tomam decisões que fazem narrativas.”

A justiça — outro dos princípios — apareceu ilustrada com uma experiência pessoal, contada com um misto de ironia e exasperação. Numa ida a um hospital, deparou-se com uma sinalética; “uma porcaria”, confessou, pedindo desculpa pela expressão. “Pensem nos nossos idosos, com dificuldades de mobilidade, a vaguear por corredores. O sistema até tem meios, mas não está suficientemente clarificado. Isto é uma questão de justiça.”

A terminar, deixou uma provocação, desta vez sobre o que se entende por “direito à saúde”. “A saúde não é um direito. O que é um direito? É o acesso aos cuidados de saúde.” A distinção, aparentemente técnica, tem implicações profundas na forma como se desenham políticas e se exigem responsabilidades.

A conferência não se alongou em recomendações práticas. Lucília Nunes preferiu deixar perguntas no ar. Como garantir que o desejo de fazer o bem — a beneficência — não esbarra na incompreensão do doente? Como promover o respeito pela autonomia sem ignorar as desigualdades? Como tornar os sistemas mais justos quando a própria literacia é desigual?

No final, não houve respostas fechadas. Ficou a sensação de que, em matérias de literacia e ética, a única certeza é a necessidade de continuar a perguntar.

HN/AL/MMM

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights